A rigidez hierárquica da sociedade colonial brasileira, a qual pode ser designada como um exemplo cruel de um sistema patriarcal, manteve as mulheres – sobretudo as escravizadas – sob o domínio de sérios aparatos repressivos e impôs condições de trabalho bastante desgastantes. Nesse sentido, ainda que essas estruturas tenham sido superadas, o legado histórico é evidente, à medida que a precarização da mulher em trabalhos de cuidado edifica um quadro de invisibilidade, reproduzindo o horror do passado. Esse cenário nefasto ocorre não só em razão da prevalência do desamparo governamental, mas também em virtude da desvalorização humana. Logo, é fundamental a discussão dessa problemática, a fim de propor itinerários para o seu enfrentamento.
É relevante enfatizar, precipuamente, que a negligência estatal se caracteriza como um grande desafio para o enfrentamento da invisibilidade feminina em tarefas de acompanhamento doméstico, visto que há um reduzido empenho em aplicar os dispositivos jurídicos pertinentes. Acerca disso, a Constituição Brasileira de 1988, promulgada para a manutenção do bem-estar social, assegura a inviolabilidade da igualdade e a assistência aos desamparados, como direitos fundamentais e objetivos fundamentais. Entretanto, embora estabelecida de forma simbólica e legítima, é notória a sua fragilidade, haja vista que, infelizmente, existe uma nítida discrepância de gênero na execução de trabalhos de cuidado, e as mulheres permanecem violentadas pela falsa atribuição popular e tradicional de que são, naturalmente, responsáveis por trabalhos domésticos e assistenciais. Desse modo, é importante lutar pela materialização de regalias consideravelmente teóricas, para que a invisibilidade feminina destacada possa ser atenuada.
Outrossim, compete abordar que, no que se refere aos trabalhos de cuidado desempenhados por mulheres, o desprezo humanitário crescente, inerente ao estágio capitalista atual, estende a disseminação do óbice. Nesse contexto, Franz Kafka, em sua obra emblemática "Um Artista da Fome", apresenta a narrativa de um homem faminto cuja habilidade é jejuar por longos períodos, valendo-se da metáfora de que nunca encontrou um alimento que saciasse a sua fome. Com esse desfecho nada banal, o artista é aprisionado em uma jaula e morre de inanição, figurando uma total animalização. Sob esse viés, por não receberem reconhecimento necessário e terem que conviver, diariamente, com a humilhação de seus chefes, muitas mulheres tendem a sucumbir a coerção sistemática - simbolizada, no conto, pela jaula. Assim, com a concepção instituída de que há uma ampla desvalorização humana em detrimento da falta de suporte governamental, o qual tem íntima relação com o avanço das desigualdades propiciadas pelo capitalismo, é urgente a avaliação desse panorama.
Depreende-se, portanto, que a carência de enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher precisa ser, decisivamente, estudada no âmbito político. Para tal, faz-se imprescindível que o Ministério das Mulheres - pasta executiva encarregada de atenuar as desigualdades de gênero e a invisibilidade feminina - promova a formalização dos trabalhos de cuidado, por meio dos suportes digitais atrelados às páginas virtuais do governo e do apoio a Projetos de Emendas Constitucionais que assegurem uma remuneração (no mínimo) assistencial, com o intuito de facilitar o mapeamento dessas atividades laborais e, consequentemente, de valorizar o papel da mulher na execução delas. Sem abrir margem para o desprezo da mulher nos locais de trabalho e mitigando a arbitrariedade dos seus empregadores, será possível suplantar a herança patriarcal vigente.