Em outubro de 1988, a sociedade conheceu um dos documentos mais importantes da história do Brasil: a Constituição Cidadã, cujo conteúdo garante direito à dignidade. Todavia, milhares de pessoas vivem distantes da realidade pregada pela Carta Magna, visto os desafios envolvidos no enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher. Diante disso, faz-se necessário combater a omissão estatal e reconhecer a importância dessas atividades.
Acerca dessa lógica, cabe ressaltar que a precária ação governamental contribui para a pouca atenção oferecida ao público que realiza tarefas de cuidado. Nesse sentido, a antropóloga Lilia Schwarcz elaborou o termo "política de eufemismos", ou seja, determinados problemas tendem a ser suavizados, deixando de receber a visibilidade necessária. Nesse viés, o Estado falha ao não garantir adequadas condições de emprego e remuneração às mulheres que realizam trabalho doméstico diário, o que prejudica a qualidade de vida dessa parcela da sociedade. Logo, enquanto o Governo não oferecer direitos de trabalho dignos, parte expressiva do público feminino persistirá sem o adequado reconhecimento trabalhista e social.
Além disso, reconhecer a importância das tarefas de assistência é condição para enfrentar sua invisibilidade. Nesse cenário, o sociólogo frânces Pierre Bordieu elaborou o conceito de "violência simbólica" como a opressão que, embora não seja palpável, causa danos morais e psicológicos. Nessa lógica, a sociedade falha ao não compreender a relevância dos trabalhos de cuidado realizados por inúmeras mulheres que contribuem para atividades essenciais de transformações sociais e que não são valorizadas em atividades de reprodução da vida. Portanto, enquanto a população não atribuir os devidos valores a essas trabalhadoras, elas continuarão invisibilizadas.
Destarte, medidas são necessárias para combater esse cenário social. Para isso, o Governo Federal – instância de máxima autoridade trabalhista – deve fixar um piso salarial adequado com garantias de direitos para quem realiza trabalhos de cuidado, por intermédio da diminuição de impostos de quem as contrata e melhor direcionamento de verbas, a fim de combater a invisibilidade, garantindo, como efeito, melhoria da qualidade de vida desses indivíduos. Ademais, também é seu dever estimular o reconhecimento dessas profissionais, mediante publicações nas redes sociais que modifiquem percepções sociais errôneas desse trabalho. Afinal, somente assim será possível cumprir um importante direito previsto na Carta Magna.