A obra literária “A vida que ninguém vê”, de autoria de Eliane Brum, retrata os mais diversos personagens sociais (sobretudo as mulheres domésticas) que são invisíveis para o povo e para o próprio Estado. De maneira análoga à narrativa, a desvalorização das pessoas encarregadas do cuidado do lar e da família é um desafio enfrentado no Brasil contemporâneo, uma vez que não há um devido reconhecimento da importância dessas atividades para a economia do país. Nesse sentido, tanto a perpetuação do imaginário patriarcal quanto o descaso do governo para com essa parcela da sociedade é responsável pela invisibilidade do trabalho do cuidado realizado por mulheres no país brasileiro.
Em primeiro lugar, é impossível desvincular o contexto histórico de formação dos papéis sociais da permanente conjuntura que submete a mulher ao serviço doméstico. Desde os primórdios da humanidade - no período dos homens da caverna, por exemplo - o sexo masculino era designado às tarefas de caça, e o sexo feminino, enquanto isso, deveria cuidar dos filhos e dos afazeres do lar. A despeito de todo o progresso científico e humanitário, esse imaginário patriarcal ainda vigora no Brasil da atualidade, de maneira que as convenções de gênero continuam delegando o trabalho do cuidado, majoritariamente, às mulheres. Nesse contexto, as meninas são, desde pequenas, ensinadas a ajudar nos serviços de casa, sendo que, em comunidades mais pobres, essa já é uma responsabilidade de fato para elas. Isso se deve à normatização do papel atribuído à mulher na sociedade - reclusa em casa para ordenar o lar e para assistir a família -, que ocorreu de tal forma que hoje o trabalho de cuidado é invisível aos olhos do corpo social e, por conseguinte, desvalorizado por ele.
Outrossim, o descaso do governo frente à economia do cuidado também é um empecilho para o enfrentamento da invisibilidade do serviço doméstico realizado pela mulher no Brasil. Tendo em vista a má e, por vezes, ausente remuneração do trabalho de assistência, é evidente que o Estado, bem como o corpo social, não reconhece a necessidade desse serviço para a sociedade. Sendo assim, cria-se um cenário de desvalorização das atividades de cuidado, já que nem mesmo o governo atribui um valor digno às mulheres que se ocupam dos afazeres domésticos. Sob essa óptica, é nítida a promoção da invisibilidade das prestadoras de cuidado da casa e da família pelo próprio Estado - que não garante o reconhecimento e um salário justo a essas mulheres.