Em sua famosa composição “Mulheres de Atenas”, Chico Buarque retrata, de maneira subjetiva, as nuances socioculturais que permeiam o cotidiano das mulheres atenienses, que vivem em estado de subserviência e são reduzidas à função de cuidar da casa e da família. Embora seja de caráter literário, a referência da obra é perceptível na atual conjuntura brasileira, na medida em que os obstáculos para o combate à invisibilidade do trabalho de cuidado feito por mulheres no país são irrefutáveis. À vista de tal panorama, são evidentes os malefícios da exploração do trabalho de cuidado como profissão e da manutenção das convenções de gênero.
Diante desse cenário, a persistência de padrões exploradores da condição da mulher como cuidadora é, de fato, potencializadora da problemática. Nesse sentido, no filme brasileiro “Que Horas Ela Volta?” – protagonizado por Regina Cazé – é retratada a dura trajetória de uma empregada doméstica à qual são delegados todos os afazeres da casa, com baixa remuneração e descaso pelos patrões. Apesar de ser ficcional, a verossimilhança da obra se revela inegável, uma vez que, no Brasil, inúmeras mulheres enfrentam diariamente a exploração de seus trabalhos como cuidadoras, sendo negligenciadas, de modo majoritário, devido a fatores como etnia e classe social, o que torna indiscutível a vulnerabilização de minorias nesse contexto. Por conseguinte, a discussão acerca das implicações sociais dessa invisibilidade na qualidade de vida das mulheres é imprescindível.
Além disso, cabe ressaltar que tal debate evidencia uma questão mais complexa: a manutenção dos papeis de gênero convencionados socialmente. Frente a um contexto multifacetado de opressões de gênero, a filósofa existencialista Simone de Beauvoir salienta, em seus estudos, que a mulher já nasce com características socialmente pré-estabelecidas para ela, precisando lutar para sua emancipação enquanto indivíduo. Nessa lógica, o pensamento de Beauvoir é institucionalizado no Brasil devido, principalmente, à carência de valorização da figura feminina e à constante redução da mulher à função de servir, cuidar e procriar, perpetuando, assim, inegáveis opressões. Dessa forma, a busca pela valorização feminina para além do cuidado com o lar e da condição de cuidadora é indispensável.