Conforme o pensamento aristotélico, a justiça é a base da sociedade. Contudo, o contexto do Brasil, no século XXI, contraria esse conceito, uma vez que a permanência de invisibilidade do trabalho de cuidado realizado por mulheres é uma injustiça ao bem-estar social. Dessa forma, a desvalorização da figura feminina e a falta de apoio são alguns dos desafios desse impasse que precisam ser enfrentados.
Em primeira análise, o ato de não valorizar mulheres como cidadãs que têm os mesmos direitos que a população masculina é uma das causas para que suas atividades de cuidado sejam menosprezadas. De acordo com a pensadora Simone de Beauvoir, “o maior dos escândalos é que nos habituamos a eles”. A partir do exposto, o habito de delegar integralmente às mães, às avós o cuidado de crianças e dos afazeres domésticos , por exemplo, demonstra o enraizamento de ideias machistas. Desse modo, o estado de subserviência é visto como inerente à realidade feminina, que é invisibilizada. Assim, o esforço físico e psicológico da rotina diária de mulheres que cuidam de outras pessoas não é visto ou valorizado por conta do não enfrentamento da discriminação de gênero.
Além do mais, o escasso apoio ao público feminino que trabalha auxiliando indivíduos também é uma das razões para que tais práticas laborais permaneçam invisíveis. Segundo o filósofo Émile Durkheim, é dever do estado gerenciar questões relacionadas ao bem-estar da coletividade. Todavia, ao não haver o reconhecimento e o auxílio às mulheres que exercem trabalhos como cuidadoras, tal preceito não é efetivo por completo. Dessa maneira, patologia como depressão e ansiedade podem ser desenvolvidas pelo desgaste da alta carga horária de tarefas não remuneradas e pela sensação de desamparo social e governamental. Logo, a falta de apoio contribui para o apagamento da colaboração dessa parte da população ao corpo social.
Portanto, mudanças são necessárias para alterar essa realidade. É preciso que o Ministério da Mulher promova campanhas sobre o trabalho do cuidado realizado por mulheres. Tal ação pode ser feita por meio de documentários divulgados nos meios de comunicação - televisão, redes sociais, afim de instigar a valorização da personalidade feminina. Ademais, é necessário que as prefeituras dos municípios realizem projetos regionais de integração de mulheres cuidadoras. Isso podem ocorrer com apoio de psicólogos e auxílios financeiros às trabalhadoras que estão em vulnerabilidade social e sem renda própria , com a finalidade de diminuir o desamparo. Posto isso, espera-se uma sociedade mais justa e igualitária possa ser formada.