Na obra autobiográfica Eu Sou Malala, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai afirma que as mulheres são as principais engrenagens por trás da máquina social, ou seja, apesar de terem um papel fundamental para o funcionamento coletivo, não são devidamente valorizadas. Diante dessa conjuntura, é possível relacionar a passagem da escritora como cenário de invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil, o qual apresenta desafios para o seu enfrentamento. Nesse sentido, é válido citar a formação cultural e a apatia social como obstáculos para a resolução do problema citado.
De início, é importante mencionar as bases culturais do país como empecilhos para a mitigação da problemática em destaque. Segundo o livro Casa Grande e Senzala, escrito pelo sociólogo Gilberto Freyre, o Brasil foi fundado a partir de pilares como a misoginia. Sob essa óptica, percebe-se que, embora tenha sido escrita com base no contexto colonial brasileiro, a obra pode ser relacionada à atualidade, uma vez que a opressão feminina ainda se faz presente por meio de mecanismos como a invalidação das atividades realizadas pelas mulheres, principalmente quando se trata dos trabalhos de cuidado, os quais consistem nos afazeres domésticos e cuidados com crianças, idosos e portadores de deficiências. Assim, nota-se que as profissões fundamentais para o bom funcionamento coletivo, como os cuidadores de creches ou hospitais, por serem protagonizadas pela população feminina, são invalidadas, o que evidencia o papel da formação sociocultural como agente perpetuador do cenário desafiador do enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado feito por mulheres.
Outrossim, é necessário pontuar a apatia da sociedade como outro fator que dificulta a resolução do problema em análise. De acordo com a filósofa alemã Hannah Arendt, em sua teoria sobre a banalidade do mal, quando os indivíduos são constantemente expostos a determinadas situações extremas, eles tendem a tratá-las como comuns, perdendo o senso de urgência. Sob esse prisma, é possível conectar o pensamento da estudiosa com o cenário de invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela população feminina no Brasil, tendo em vista que, por ser uma problemática profundamente enraizada no corpo social, é tratada com normalidade, não havendo uma mobilização popular em prol da mudança dessa realidade. Dessa forma, visualiza-se como a indiferença coletiva perante a situação mencionada representa um desafio para o enfrentamento da invalidação do trabalho de cuidado feito por mulheres no país.
Dessarte, cabe às escolas, agentes dotados de grande poder de transformação social, a criação de um projeto de estímulo à valorização dos trabalhos de cuidado realizado por mulheres. Essa ação deve ser realizada com o fim de evidenciar a importância dessas tarefas, por meio de aulas e palestras ministradas por especialistas, de forma a minimizar a apatia social, promovendo mobilização popular em prol desse debate, e amenizar, gradualmente, as bases socioculturais que invalidam as mulheres. Desse modo, será viável diminuir os desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres, mudando a realidade descrita por Malala Yousafzai.