O documentário “Guerras do Brasil”, que tem participação do ativista indígena Ailton Krenak, apresenta, em seu primeiro episódio, a perspectiva dos povos originários em relação ao processo de colonização brasileiro, ressaltando a manutenção da luta dessas comunidades pela conservação da cultura e preservação da natureza na atualidade. A partir desse cenário, é necessário avaliar os obstáculos que impedem a valorização efetiva dos povos tradicionais no Brasil, o que está associado à relação conflituosa com o modelo econômico agroexportador brasileiro, bem como à visão de parte da sociedade que inferioriza organizações sociais que se diferenciam do padrão ocidental.
De início, é importante observar a contraposição existente entre a forma como as comunidades originárias e uma parcela da população lidam com a natureza. Nesse contexto, destaca-se o modelo de colonização do Brasil, chamado de “colônia de exploração”, o qual estabeleceu uma economia pautada na exploração dos recursos naturais em vista da possibilidade do lucro. Esse tipo de visão, que é observado, na atualidade, pela manutenção de um modelo econômico agroexportador, se opõe à visão dos povos tradicionais em relação à natureza, os quais estabelecem uma íntima relação de reciprocidade, identificando, nesse local, a sua fonte de sobrevivência e de moradia. Como consequência dessas realidades opostas, alguns indivíduos consideram a população originária contrária ao progresso econômico buscado pelo capitalismo, o que impede a valorização do saber desses povos sobre a natureza.
Além disso, percebe-se a existência de um pensamento que estabelece uma relação de hierarquização entre os povos brasileiros, o que impede o reconhecimento efetivo das comunidades tradicionais. Nesse sentido, evidencia-se a disseminação, durante o processo de colonização brasileiro, do mito do “Bom Selvagem”, em que os nativos foram caracterizados como ingênuos e puros, sendo possíveis de serem civilizados pela cultura ocidental, desconsiderando a organização social já existente entre esses povos. Consequentemente, devido à desqualificação da noção própria de organização dessas comunidades culturalmente diferenciadas, observa-se a inferiorização de costumes e hábitos não ocidentais, impedindo uma visão de igualdade que permite a valorização dos povos tradicionais.
Portanto, conclui-se que o Governo Federal, em parceria com o Ministério da Educação, deve promover o reconhecimento das características singulares de cada comunidade tradicional brasileira, por meio de debates com lideranças desses grupos com a população, o que pode ser realizado em instituições públicas, como as escolas, bem como em ambientes virtuais, como as redes sociais, a fim de garantir a valorização plena desses povos que pertencem à noção. Ademais, é relevante que se estabeleçam relações mais amistosas entre o ser humano e a natureza, a partir da valorização dos saberes tradicionais.