A máxima "o trabalho dignifica o homem", apregoada pela ética calvinista durante a Reforma Protestante, foi essencial para que a visão estigmatizada sobre as práticas laborais, antes realizadas majoritariamente por plebeus e por escravos, pudesse ser revista e superada. Desde essa mudança de paradigma, o trabalho é visto como atividade que garante o progresso e a autossuficiência do homem, embora alguns ofícios, como as tarefas de cuidado realizadas por mulheres, ainda estejam suscetíveis à desvalorização e à invisibilidade. Nessa perspectiva, destacam-se a histórica disparidade de gêneros e a desigualdade social como entraves que subalternizam o sexo feminino na contemporaneidade.
Sob esse prisma, entende-se que os seculares papéis de gênero impossibilitam a valorização do trabalho de cuidado feminino no Brasil. Isso acontece, porque, segundo Simone de Beauvoir, importante filósofa feminista, “não se nasce mulher, torna-se mulher”, ou seja, o sexo feminino só se define a partir da adesão aos papéis sociais determinados pela cultura. Em vista disso, as históricas convenções de gênero, que prescrevem à mulher a mera reprodução da vida e a realização de cuidados domésticos, ainda persistem na cultura e impedem a devida remuneração e o compartilhamento das tarefas realizadas no ambiente familiar. Consequentemente, o trabalho de cuidado, o qual inclui cuidar de crianças e de pessoas com deficiência, é visto como natural e intrínseco ao cotidiano feminino, o que reitera a tese da filósofa francesa. Assim, movimentos que almejam a igualdade de gêneros devem se mobilizar para impedir a persistente invisibilidade dos afazeres domésticos realizados pelas mulheres.
Ademais, a marginalização das tarefas de cuidado performadas pelo sexo feminino se associa à permanência da desigualdade social. Articulada a esse contexto está a “invisibilidade pública”, conceito do psicólogo social Fernando Braga que denuncia o apagamento social e psicológico que grupos economicamente vulneráveis sofrem na sociedade. Nesse sentido, o fato de as mulheres pobres e periféricas, maiores e menores de idade, ainda serem aquelas que, desproporcionalmente, investem seus esforços no diário trabalho de cozinhar e de limpar a casa, sem remuneração e visibilidade, ratifica a denúncia de Braga. Por conseguinte, é comum essas mulheres, muitas vezes submetidas à dupla jornada de trabalho, não só enfrentarem dificuldades para se qualificarem e para se dedicarem exclusivamente a trabalhos formais, mas também terem seu sofrimento psíquico invalidado.
Logo, é imperativo que o sexo feminino tenha seu trabalho de cuidado valorizado. Para tanto, a sociedade civil organizada, a exemplo de grupos feministas, deve instruir amplamente sobre as diversas faces da desigualdade de gênero, pois ações educativas têm imenso poder transformador. Isso será possível por intermédio de palestras gratuitas e de rodas de conversa mensais, em parques públicos e em centros culturais, a fim de mobilizar a sociedade para exigir a valorização do ofício de cuidado feminino. Dessa forma, a invisibilidade pública que acomete mulheres será amenizada, propiciando mais dignidade às atividades trabalhistas desse grupo em conformidade à ética calvinista.