No período escravocrata brasileiro, as mulheres eram as principais exploradas no que diz respeito aos trabalhos domésticos e aos cuidados das crianças, algumas até com a função de amamentação, como as amas de leite. No Brasil contemporâneo, apesar do tempo decorrido, o presente se assemelha ao passado, visto que há um legado histórico, o qual mantém a mulher nesse ciclo de exploração e invisibilidade do seu trabalho de cuidado. Nesse contexto, os principais desafios que dificultam o enfrentamento desse problema é a mentalidade patriarcal e os valores capitalistas.
Diante desse cenário, nota-se a herança patriarcal como uma potencializadora do problema. Isso acontece, porque há um machismo estrutural no país, o qual contribui para a errônea ideia de que os serviços de cuidado devem ser prioritariamente das mulheres. Tal estigma baseia-se em estereótipos sociais que as caracterizam como mais "jeitosas", "sensíveis" e "cuidadosas", como se fossem características inatas ao grupo feminino, quando na verdade são atribuições que podem e devem ser ensinadas. Nesse cenário, vê-se na prática o conceito de "violência simbólica", do sociólogo Pierre Bourdieu, o qual defende que atos violentos podem acontecer sem agressão física, ocorrendo por meio de ações que agridem a honra, o prestígio e o reconhecimento. Nessa perspectiva, a invisibilidade do trabalho de cuidadora violenta diariamente as mulheres que não têm seus esforços reconhecidos, sendo muitas vezes discriminadas em suas funções, assim como os escravos do período colonial. Logo, é preciso desconstruir a visão patriarcal.
Além disso, a mentalidade capitalista é outro desafio. É inquestionável que a sociedade hoje se move em torno de produtividade e resultados, de preferência, calculáveis, tendo como base a priorização do dinheiro em prejuízo da vida. Nessa lógica de mercado, as trabalhadoras de assistência são vistas como inferiores, ou melhor, são invisibilizadas, por não gerarem renda direta para o Estado. Tal cenário pode ser explicado pelo conceito da "sociedade do desempenho", do sociólogo Byung-Chul Han, o qual diz que há uma busca incessante pela produtividade e pelo sucesso, o qual está associado ao dinheiro, ou seja, o reconhecimento é proporcional às conquistas financeiras. Com efeito, as cuidadoras são relegadas à inexistência na nação do desempenho, como se seus trabalhos não fossem importantes. No entanto, a ausência desses serviços geram um impacto considerável no sistema por serem essenciais para que os outros setores funcionem. Por isso, é importante dar visibilidade a essas trabalhadoras.
Fica claro, portanto, que o patriarcalismo e a visão capitalistas são grandes obstáculos. Sendo assim, o Ministério do Trabalho deve desconstruir os estereótipos patriarcais e capitalistas, valorizando nossas cuidadoras. Essa ação deve ser feita por meio da implantação de um Projeto Nacional Cuidado Diário, o qual irá promover, nas redes sociais, campanhas com influenciadores mostrando a rotina das mais diversas trabalhadoras de cuidado e o impacto social e econômico da ausência delas, além de desconstruir estereótipos sociais por meio de debates. Isso deve ser feito com o objetivo de dar visibilidade e prestígio a essas mulheres tão necessárias para nação brasileira. Dessa forma, será possível romper com essa violência que nos assola desde o período colonial.