Em seu livro “Cidadania no Brasil: o longo caminho”, o historiador José Murilo de Carvalho defende a coexistência de direitos civis e sociais como imprescindível para que se alcance uma cidadania plena. Sob esse viés, a desvalorização de serviços fundamentais para o desenvolvimento da sociedade impossibilita a efetivação da cidadania genuína - referida por Carvalho. Nesse contexto, convém analisar a questão dos desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil, cujas principais causas são a naturalização da desigualdade de gênero e a negligência do Estado.
A princípio, deve-se compreender que a normalização das desigualdades de tratamento entre homens e mulheres perpetua o problema. De acordo com a filósofa Hannah Arendt, em virtude de um processo de massificação ao qual foram submetidos, os indivíduos foram moldados a naturalizar as mazelas circundantes. Nessa perspectiva, a população - condicionada pela tradição - não só delega trabalhos de cuidado ao gênero feminino como também menospreza suas péssimas condições. Aliás, muitas pessoas julgam a invisibilidade da mulher envolvida nesse tipo de serviço como algo natural, uma vez que, historicamente, a mulher foi obrigada a trabalhar no ambiente doméstico, independentemente da má remuneração ou, em certos casos, de sua ausência. Desse modo, a naturalização da desigualdade de gênero impede que as mulheres desse meio alcancem uma cidadania plena.
Além disso, é inegável que o Estado contribua para a persistência da problemática. Em sua obra "O Cidadão de Papel", o escritor Gilberto Dimenstein retrata um país no qual garantias constitucionais são restritas ao papel. Paralelamente, não tão distante da ficção, o governo brasileiro, apesar de possuir a Constituição Federal - uma das mais completas - é omisso quanto à lamentável situação de trabalhadoras de cuidados. Inclusive, os baixos salários destinados a essas mulheres é, no mínimo, uma injustiça, tendo em vista a importância desses serviços para o bom funcionamento da sociedade. Assim, ao ser negligente, o Estado deteriora a condição de invisibilidade feminina no trabalho doméstico, quando, na verdade, deveria enfrentá-la.
Portanto, medidas são necessárias para resolver o problema. Para isso, o Governo Federal deve promover campanhas de conscientização da população - realizadas em locais públicos de fácil acesso - por meio da divulgação de dados que expressem a relevância do serviço caseiro para o país, além de palestras que desconstruam a noção de que seja normal que as mulheres recebam menos, a fim de desnaturalizar as desigualdades de gênero. Ademais, também é obrigação do Estado aumentar a qualidade de vida desse grupo social, mediante promoção de aumento salarial, junto à disponibilização de suporte emocional, com o intuito de combater sua marginalização. Em suma, será possível enfrentar a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil e, destarte, efetivar a cidadania plena - defendida por José Murilo de Carvalho.