Na obra intitulada "Brasil, País do Futuro", Stefan Zweig, autor austríaco, em sua visita ao Brasil, defende a ideia de que o país estava destinado a ser um dos mais importantes países do mundo no futuro. No entanto, 30 anos depois, as previsões do autor ainda não se concretizaram e os desafios para o trabalho de cuidado - realizado por mulheres - são entraves para isso. Observa-se, assim, que isso ocorre porque a negligência governamental e a permanência histórica impedem essa evolução.
Sob esse viés, é preciso atentar para a omissão estatal presente nessa problemática. Nessa perspectiva, o pensador Thomas Hobbes afirmou que o Estado é responsável por garantir o bem-estar da população. Entretanto, isso não ocorre no Brasil, pois a falta de atuação das autoridades corrobora a permanência do trabalho não remunerado, principalmente, por mulheres - que inclui cuidar de crianças e idosos, bem como os afazeres domésticos. Visto que o Governo não tem cumprido seu papel no sentido de assegurar os direitos básicos a esse grupo social, como o direito a um salário digno. Assim, as funções sociais e estatais são descumpridas, agravando o problema.
Outrossim, a permanência histórica é fator importante como constituinte desse imbróglio. Nesse sentido, consoante o pensamento do antropólogo Claude Lévi-Strauss, só é possível compreender adequadamente as ações coletivas por meio do entendimento dos eventos históricos. Desse modo, a questão da invisibilidade do trabalho de cuidado feito por mulheres majoritariamente pobres e vítimas de discriminação de gênero, mesmo que fortemente presente no século XXI, apresenta raízes indissociáveis à história brasileira - que foi marcada pelo machismo e pelo patriarcado -, uma vez que as atividades domésticas não pagas ainda são delegadas às pessoas do sexo feminino de forma quase que exclusiva.
Faz-se necessário, portanto, que meios sejam criados para intervir nesse óbice. Logo, o Governo Federal - órgão responsável pela administração federal em todo território nacional - deve estabelecer políticas públicas que garantam a remuneração e a valorização do trabalho de cuidado, por meio da utilização de verbas governamentais para o pagamento de salários. Tal ação deve ser realizada com a finalidade de mitigar a invisibilidade dos afazeres domésticos realizados pela maioria da sociedade brasileira e, consequentemente, combater as raízes históricas presentes nessa questão. Dessarte, o Brasil poderá se tornar um "País do Futuro", como defendido por Stefan Zweig.