A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 prevê a todos os direitos à igualdade e à dignidade. Porém, na contemporaneidade brasileira, a concretização da garantia em voga é dificultada pelos desafios relacionados ao enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher. Tal cenário ocorre, em especial, devido à morosidade estatal e à má formação sociocultural.
De início, é imprescindível ressaltar a desassistência do Poder Público como fator agravante do diminuto reconhecimento social em questão. A partir da perspectiva citada, segundo o filósofo Friedrich Hegel, o Estado é o pilar inicial de uma nação, isto é, constitui o meio correferido à atenuação das mazelas sociais. No entanto, o Governo permanece ineficaz, no tocante à efetivação do referido princípio, em virtude da escassez de investimentos voltados a combater a invisibilização do trabalho de cuidado feminino, visto que diversas mulheres, principalmente das classes mais baixas, sofrem com a baixa remuneração e cargos exaustivos de afazeres domésticos e de cuidados às pessoas que demandam serviços de assistência, como crianças e idosos, o que mostra a negligência das autoridades em oferecer iguais oportunidades de empregos remunerados a ambos os sexos. Como efeito, enquanto persistir a insuficiência governamental, a desigualdade de gênero continuará a crescer.
Ademais, a precária formação sociocultural ratifica a preocupante situação mencionada. Sob essa óptica, de acordo com o educador Paulo Freire, "Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda". Todavia, percebe-se que a escola não oferece uma instrução qualificada, no tangente à aprendizagem das consequências da desvalorização das atividades de cuidado realizadas pelas mulheres, já que grande parte das instituições educacionais foca em um ensino extremamente conteudista, pouco voltado para debates cívicos acerca das questões de gênero. Além disso, notabiliza-se a letargia familiar, uma vez que é ínfima a transmissão de princípios e de valores referentes à importância da divisão de tarefas diárias de forma igualitária entre os sexos, porquanto a normalização da mentalidade patriarcal é reflexo da não prioridade dada ao assunto em análise. Logo, há um aumento considerável do preconceito contra a mulher no cotidiano brasileiro.
Diante dos fatos supracitados, o Estado, agente regulador da comunidade, deve mobilizar a iniciativa privada, por meio de investimentos e de incentivos fiscais direcionados ao combate à invisibilidade do trabalho de auxílio feito pela mulher, bem como ao oferecimento de empregos formais de maneira justa e igual entre homens e mulheres, a fim de melhorar a qualidade de vida da população. Simultaneamente, é fundamental que a escola, aliada à família, oriente e eduque os alunos, desde a tenra idade, por intermédio de palestras – ministradas por profissionais qualificados –, de atividades lúdicas, de diálogo e de exemplos, que expliquem a importância da igualdade de gênero e do respeito a todos, com o intuito de formar cidadãos competentes. Assim, os direitos à igualdade e à dignidade, previstos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, poderão ser efetivados.