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BIBLIOTECAS
As bibliotecas só aparentemente são casas sossegadas. O sossego das bibliotecas é a ingenuidade
dos ignorantes e dos incautos. Porque elas são como festas ou batalhas contínuas e soam canções ou
trombetas a cada instante. E há invariavelmente quem discuta com fervor o futuro, quem exija o futuro
e seja destemido, merecedor da nossa confiança e da nossa fé.
[5] Adianta pouco manter os livros de capas fechadas. Eles têm memória absoluta. Vão saber esperar
até que alguém os abra. Até que alguém se encoraje, esfaime, amadureça, reclame o direito de seguir
maior viagem. E vão oferecer tudo, uma e outra vez, generosos e abundantes. Os livros oferecem
o que são, o que sabem, uma e outra vez, sem se esgotarem, sem se aborrecerem de encontrar
infinitamente pessoas novas. Os livros gostam de pessoas que nunca pegaram neles, porque têm
[10] surpresas para elas e divertem-se com isso. Os livros divertem-se muito.
As pessoas que se tornam leitoras ficam logo mais espertas, até andam três centímetros mais
altas, que é efeito de um orgulho saudável de estarem a fazer a coisa certa. Ler livros é uma coisa
muito certa. As pessoas percebem isso imediatamente. E os livros não têm vertigens. Eles gostam de
pessoas baixas e gostam de pessoas que ficam mais altas.
[15] Depois da leitura de muitos livros pode ficar-se com uma inteligência admirável e a cabeça acende
como se tivesse uma lâmpada dentro. É muito engraçado. Às vezes, os leitores são tão obstinados
com a leitura que nem se lembram de usar candeeiros de verdade. Tentam ler só com a luz própria dos
olhos, colocam o livro perto do nariz como se o estivessem a cheirar. Os leitores mesmo inteligentes
aprendem a ler tudo, até aquilo que não é um livro. Leem claramente o humor dos outros, a ansiedade,
[20] conseguem ler as tempestades e o silêncio, mesmo que seja um silêncio muito baixinho. Alguns
leitores, um dia, podem aprender a escrever. Aprendem a escrever livros. São como pessoas com
palavras por fruto, como as árvores que dão maçãs ou laranjas. Pessoas que dão palavras.
Já vi gente a sair de dentro dos livros. Gente atarefada até com mudar o mundo. Saem das histórias
e vestem-se à pressa com roupas diversas e vão porta fora a explicar descobertas importantes. Muita
[25] gente que vive dentro dos livros tem assuntos importantes para tratar. Precisamos de estar sempre
atentos. Às vezes, compete-nos dar apoio. Alguns livros obrigam-nos a pôr mãos ao trabalho. Mas
sem medo. O trabalho que temos pela escola dos livros é normalmente um modo de ficarmos felizes.
Valter Hugo Mãe
Contos de cães e maus lobos. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2018
São como pessoas com palavras por fruto (l. 21-22)
A palavra destacada expressa, no contexto da frase, sentido semelhante a: