Leia o trecho do texto de Ann Heberlein para responder à questão.
Às vezes, se assistirmos aos jornais noturnos, podemos ter a sensação de que nós, suecos, estamos especialmente expostos a ultrajes1. Creio que muitos compreenderam que “ser vítima de ultraje” é uma arma poderosa. Aquele que afirma ter sido vítima tem a seu lado simpatias e direitos, e aquele que é acusado sente-se naturalmente mal e acaba em situação vexatória.
Alguns anos atrás, ministrei um curso na Universidade de Lund. Quando as provas foram corrigidas e os resultados divulgados, recebi a visita de dois estudantes “ultrajados”. O estudante afirmava que fora reprovado porque eu – “feminista radical” – favorecia as estudantes. Portanto, o fato de ter sido reprovado não tinha, segundo ele, nada a ver com seu resultado, mas se devia totalmente ao fato de ele ser do sexo “errado”. A estudante afirmava que merecia uma boa nota. Segundo ela, o motivo para ter obtido apenas uma nota regular e não boa era que eu favorecia “os homens jovens e bonitos do curso”.
Em ambos os casos, tratava-se, naturalmente, do fato de os estudantes em questão não terem correspondido aos critérios para a respectiva nota. Entretanto, pelo fato de afirmarem que haviam sido ultrajados, a responsabilidade pelo fracasso era posta fora deles mesmos. Assim, aos seus próprios olhos, se transformaram de estudantes indolentes em vítimas de discriminação.
Meus alunos não estão sozinhos em sua descoberta do poder de ser ultrajado e do status do papel da vítima – o abuso tanto do conceito de “ultraje” quando do epíteto “vítima” está difundido, assim como a afirmação de ser discriminado.
(Não foi culpa minha!, 2012. Adaptado.)
1 ultraje: ofensa muito grave; afronta.
De acordo com o texto, as ideias de “ultraje” e “responsabilidade” relacionam-se da seguinte maneira: