Leia o trecho do livro A abolição, da historiadora Emília Viotti da Costa, para responder à questão
Na tarde do dia 13 de maio de 1888, a princesa Isabel assinava a lei que ficou conhecida na história do Brasil sob a designação de Lei Áurea. Mais de 700 mil escravos, em sua maioria localizados nas províncias de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, foram assim, do dia para a noite, transformados em homens livres. Nas senzalas e nos quilombos, os negros festejaram sua liberdade. Os jornais louvaram a lei. Muitas páginas foram escritas em sua comemoração. Nas ruas, a população celebrou ruidosamente a emancipação dos escravos. Dessa forma, por um simples ato legislativo endossado pela Coroa e aclamado pela maioria da população, eliminava-se uma instituição que vigorara por mais de três séculos.
Para uns poucos fazendeiros, a abolição significou a ruína e a perda de status: “um golpe terribilíssimo”, na opinião de um deles. “O assalto mais inclemente que até hoje se perpetrou no Brasil contra a propriedade privada”, no dizer de um descendente de senhores de escravos. Os que esperavam ser indenizados pela perda de seus escravos viram seus sonhos frustrados. Desiludidos, voltaram-se contra o governo que os levara à ruína. Mas seu ressentimento e protesto perderam-se entre as exclamações de júbilo dos escravos e de todos aqueles que se haviam identificado com a causa da abolição.
Na resposta à Fala do Trono, apresentada pela Câmara dos Deputados em junho de 1888, os deputados, dirigindo-se à princesa Isabel, assim se expressaram: “Desfizemo-nos, Senhora, do ominoso legado que apenas por constrangimento da indústria agrícola havíamos mantido até hoje, restituímos à personalidade humana os foros integrais de sua dignidade em face do princípio de igualdade política; consagramos o da uniformidade da condição civil e eliminamos assim da legislação a única exceção repugnante com a base moral do direito pátrio, e com o espírito liberal das instituições modernas.”
Com essas palavras, a Câmara dos Deputados dava por encerrada sua responsabilidade em relação aos escravos. Cumprira sua missão: libertar os homens brancos do peso da escravidão e das contradições que existiam entre a escravidão e os princípios liberais adotados pela Constituição brasileira, em vigor desde 1824. Removera a pecha de atraso que desmoralizava a Nação diante do mundo. O Brasil era o último país do mundo ocidental a eliminar a escravidão! Para a maioria dos parlamentares, que se tinham empenhado pela abolição, a questão estava encerrada. Os ex-escravos foram abandonados à sua própria sorte. Caberia a eles, daí por diante, converter sua emancipação em realidade. Se a lei lhes garantia o status jurídico de homens livres, ela não lhes fornecia os meios para tornar sua liberdade efetiva. A igualdade jurídica não era suficiente para eliminar as enormes distâncias sociais e os preconceitos que mais de trezentos anos de cativeiro haviam criado. A Lei Áurea abolia a escravidão, mas não seu legado. Trezentos anos de opressão não se eliminam com uma penada. A abolição foi apenas o primeiro passo na direção da emancipação do negro. Nem por isso deixou de ser uma conquista, se bem que de efeito limitado.
(A abolição, 2010. Adaptado.)
“Os que esperavam ser indenizados pela perda de seus escravos viram seus sonhos frustrados. Desiludidos, voltaram-se contra o governo que os levara à ruína. Mas seu ressentimento e protesto perderam-se entre as exclamações de júbilo dos escravos e de todos aqueles que se haviam identificado com a causa da abolição.” (2º parágrafo)
Os termos sublinhados referem-se, respectivamente, a