Texto
A PRIMEIRA LÍNGUA
José Eduardo Agualusa
Ver um bebê crescer é como assistir ao
desenvolvimento da humanidade, desde que
irrompemos das cavernas, até aos dias de hoje. De
início, gatinhando; depois, em passos hesitantes,
[5] testando a verticalidade. O mesmo com a
linguagem: as primeiras palavras de uma criança
são, como certamente foram as primeiras palavras
dos nossos distantes ancestrais, simples e breves.
Apenas uma sílaba ou duas, nomeando entidades
[10] ou sentimentos fundamentais: pai, mãe, fome,
medo. E a seguir: dor, luz, sangue, céu, chão, pau,
pedra, pó, só, bom, mau, lobo, cobra, cão. É assim
em todas as línguas.
Regra geral, consegue-se saber se uma palavra
[15] surgiu cedo ou tarde, contando o número de sílabas.
Suponho que palavras tardias, longas, traduzam em
geral conceitos complexos. Contudo, não há
conceito mais complexo do que Deus e esta palavra
tem, na maioria das línguas, apenas uma ou duas
[20] sílabas: zot, em albanês; atua, em maori; mungu,
em swahili, etc. Há excepções interessantes. Assim,
em malgaxe, língua de Madagascar de origem
malaia, Deus diz-se andriamanitra; a palavra,
porém, é uma soma de outras duas: nobre e
[25] perfumado. Isto porque, segundo a lenda, os
profetas eram capazes de sentir a aproximação de
Deus, com o qual conversavam, no instante em que
o ar se enchia de perfume.
Jornal O Globo, Segundo Caderno, 14 set. 2019.
“Ver um bebê crescer é como assistir ao desenvolvimento da humanidade, desde que irrompemos das cavernas, até aos dias de hoje. De início, gatinhando; depois, em passos hesitantes, testando a verticalidade.” (linhas1-5)
As formas sublinhadas evidenciam o mecanismo de