Encontrou-o pela primeira vez quando foi coroada princesa no Baile da Primavera e assim que o coração deu aquele tranco e o olho ficou cheio d’água, pensou: acho que vou amar ele pra sempre. Ao ser tirada, teve uma tontura, enxugou depressa as mãos molhadas de suor no corpete do vestido (fingindo que alisava alguma prega) e de pernas bambas abriu-lhe os braços e o sorriso. Sorriso meio de lado, para esconder a falha do canino esquerdo que prometeu a si mesma arrumar no dentista do Rôni, o Doutor Élcio, isso se subisse de ajudante pra cabeleireira. Ele disse apenas meia dúzia de palavras, tais como, você é que devia ser a rainha porque a rainha é uma bela porcaria, com o perdão da palavra. Ao que ela respondeu que o namorado da rainha tinha comprado todos os votos, infelizmente não tinha namorado e mesmo que tivesse não ia adiantar nada porque só conseguia coisas a custo de muito sacrifício, era do signo de Capricórnio e os desse signo têm que lutar o dobro pra vencer. Não acredito nessas babaquices, ele disse e pediu licença pra fumar lá fora, já estavam dançando o bis da Valsa dos miosótis e estava quente pra danar. Ela deu a licença. Antes não desse. Isso porque depois dessa licença não conseguiu mais botar os olhos nele embora o procurasse por todo o salão e com tal empenho que o diretor do clube veio lhe perguntar o que tinha perdido. Meu namorado, ela disse rindo, quando ficava nervosa, ria sem motivo. Mas o Antenor é seu namorado? estranhou o diretor apertando-a com força enquanto dançavam Nosotros. É que ele saiu logo depois da valsa todo atracado com uma moreninha de frente única, informou com ar distraído. Um cara legal mas que não ficava em nenhum emprego, no começo do ano era motorista de ônibus, mês passado era borracheiro, mas agora estava numa loja de acessórios na rua Guaianazes, não sabia o número mas era fácil de achar. Não foi fácil assim, ela pensou quando o encontrou no fundo da oficina.
(Oito contos de amor, 1996. Adaptado.)
Sobre a construção do texto, é correto afirmar que: