Todo o barbeiro é tagarela, e principalmente
quando tem pouco que fazer; começou portanto a puxar
conversa com o freguês. Foi a sua salvação e fortuna.
O navio a que o marujo pertencia viajava para a
[5] Costa e ocupava-se no comércio de negros; era um dos
combóis que traziam fornecimento para o Valongo, e
estava pronto a largar.
— Ó mestre! disse o marujo no meio da conversa,
você também não é sangrador?
[10] — Sim, eu também sangro...
— Pois olhe, você estava bem bom, se quisesse ir
conosco... para curar a gente a bordo; morre-se ali que
é uma praga.
— Homem, eu da cirurgia não entendo muito...
[15] — Pois já não disse que sabe também sangrar?
— Sim...
— Então já sabe até demais.
No dia seguinte saiu o nosso homem pela barra
fora: a fortuna tinha-lhe dado o meio, cumpria sabê-lo
[20] aproveitar; de oficial de barbeiro dava um salto mortal a
médico de navio negreiro; restava unicamente saber
fazer render a nova posição. Isso ficou por sua conta.
Por um feliz acaso logo nos primeiros dias de
viagem adoeceram dois marinheiros; chamou-se o
[25] médico; ele fez tudo o que sabia... sangrou os doentes,
e em pouco tempo estavam bons, perfeitos. Com isto
ganhou imensa reputação, e começou a ser estimado.
Chegaram com feliz viagem ao seu destino;
tomaram o seu carregamento de gente, e voltaram para
[30] o Rio. Graças à lanceta do nosso homem, nem um só
negro morreu, o que muito contribuiu para aumentar-lhe
a sólida reputação de entendedor do riscado.
Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias.
Das seguintes afirmações acerca de diferentes elementos linguísticos do texto, a única correta é: