Leia o trecho do romance Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, para responder à questão
Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta… Agora compreendia nitidamente que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres.
Nunca se apercebera de semelhante sentimento, nunca em sua vida tivera a lembrança de perscrutar suas tendências em matéria de sexualidade. As mulheres o desarmavam para os combates do amor, é certo, mas também não concebia, por forma alguma, esse comércio carnal entre indivíduos do mesmo sexo; entretanto, quem diria!, o fato passava-se agora consigo próprio, sem premeditação, inesperadamente. E o mais interessante é que “aquilo” ameaçava ir longe, para mal de seus pecados… Não havia jeito, senão ter paciência, uma vez que a “natureza” impunha-lhe essa condição.
Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em conservar-se virgem até os trinta anos, passando vergonhas que ninguém acreditava, sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os médicos proíbem. De qualquer modo estava justificado perante sua consciência, tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para não falar em certo oficial de quem se diziam coisas medonhas no tocante à vida particular. É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana…
(Bom-Crioulo, 1999. Adaptado.)
O texto revela um procedimento característico do Naturalismo quando o narrador