TEXTO
AS VOZES DO PROTESTO: A TRUCULÊNCIA POLICIAL CONTRA AS VOZES À PROCURA DE UMA CAUSA
A onda de protestos que varreu o país em junho
de 2013 teve por impulso o aumento nas tarifas
de transporte, mas esteve longe de ter uma
motivação unificadora da multidão. Desnudou,
[5] de quebra, a capa de civilidade que disfarça a
truculência de policiais e governadores
saudosos da ditadura militar.
As pessoas saíram às ruas descontentes com
discrepâncias como a que há entre a qualidade
[10] de um serviço público tão básico como o
transporte e a farra dos empresários da Copa
com o erário, que em dado momento havia sido
justificada por conta de benfeitorias que não
vieram.
[15] Mas o protesto da gota d'agua foi às ruas
avolumando gente com todo tipo de bandeira, da
tolerância zero a políticos ao fim da PEC que tira
poderes do Ministério Público.
Em todo mundo, de Detroit a Istambul,
[20] pipocaram movimentos populares apartidários,
horizontais, sem líderes. Para o sociólogo
espanhol Manuel Castells, que foi entrevistado
pelo jornal Valor Econômico quando no Brasil,
em pleno furdunço das ruas de junho, o ponto em
[25] comum na onda de protestos do planeta é a
internet.
Há a visão de que a política é corrupta e os
partidos monopolizam o poder com um modelo
de representação que está esgotado. A rede
[30] mundial tornou as relações mais horizontais,
apartidárias e sem lideranças formais – as que se
apresentam sofrem a reação avessa dos
participantes.
As pessoas saíram às ruas ávidas por
[35] expressão, mesmo sem saber o que, juntas,
expressariam. Foi o mais notável movimento de
vozes cujo mérito é não terem uma voz em
comum. A mera existência da forma – a
insatisfação, seja ela qual for – já era seu melhor
conteúdo.
Revista Língua Portuguesa. Ano 8, nº 93, julho de 2013.
Em relação aos aspectos linguísticos presentes no texto, é possível afirmar que