TEXTO
CREC-CREC
Toda morte é prematura, mas algumas doem
mais do que outras nos que ficam. Até hoje, os
amigos lamentam a falta que faz a inteligência
aguda do José Onofre, que partiu cedo demais.
[5] Foi o Onofre que, certa vez, reagindo à velha
máxima de que não se pode fazer omelete sem
quebrar ovos, usada para justificar toda sorte de
violência, disse: "É, mas tem gente que não quer
fazer omelete, gosta é de ouvir o barulhinho de
[10] cascas de ovos se quebrando". Segundo o Zé,
era preciso distinguir o sincero desejo de
revolução ou mudança da busca do crec-crec
pelo crec-crec.
Na véspera das manifestações anunciadas para
[15] o dia 7, e ainda no rescaldo das manifestações
passadas, a distinção é vital. E não parece difícil:
a turma do crec-crec é a turma do quebra quebra,
identificada pelos rostos tapados ou pelo cuidado
em não ser identificada. Mas não é tão simples
[20] assim, há mascarados com boas causas e caras
limpas que só estão ali pela baderna, os
aficionados do crec-crec como espetáculo de
rua.
E, como um complicador a mais, há a natureza
[25] indefinida das omeletes pretendidas. "Abaixo
tudo!", como li num dos cartazes sendo
carregados em junho, tem a virtude da síntese,
mas não parece ser uma reivindicação viável. Li
que a extrema direita pretende encampar a
[30] megamanifestação de sábado e que seu objetivo
- uma omeletaça - é derrubar a Dilma.
De qualquer maneira, pode-se prever mais
algumas cabeças sendo quebradas, como
cascas de ovos, nas manifestações contra tudo e
[35] a favor de, do, da... enfim, depois a gente vê - que
vem por aí.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/ impresso, crec-crec-, 1071510,0.htm. Acesso em: 08 de setembro de 2013.(adaptado)
O fragmento que descreve o sentido atribuído, pelo emissor do texto, ao termo Crec-crec é ratificado em: