Texto
O gigolô das palavras
[1] Quatro ou cinco grupos diferentes
de alunos do Farroupilha estiveram lá em
casa numa mesma missão, designada por
seu professor de Português: saber se eu
[5] considerava o estudo da gramática indis-
pensável para aprender e usar a nossa
ou qualquer outra língua. (...) Suspeitei de
saída que o tal professor lia esta coluna, se
descabelava diariamente com suas afron-
[10] tas às leis da língua, e aproveitava aque-
la oportunidade para me desmascarar. Já
estava até preparando, às pressas, minha
defesa (“Culpa da revisão! Culpa da revi-
são!”). Mas os alunos desfizeram o equí-
[15] voco antes que ele se criasse. Eles mes-
mos tinham escolhido os nomes a serem
entrevistados. Vocês têm certeza que não
pegaram o Veríssimo errado? Não. Então
vamos em frente.
[20] Respondi que a linguagem, qualquer
linguagem, é um meio de comunicação
e que deve ser julgada exclusivamente
como tal. Respeitadas algumas regras bá-
sicas da gramática, para evitar os vexames
[25] mais gritantes, as outras são dispensáveis.
A sintaxe é uma questão de uso, não de
princípios. Escrever bem é escrever claro,
não necessariamente certo. Por exemplo:
dizer “escrever claro” não é certo, mas é
[30] claro, certo? O importante é comunicar. (E,
quando possível, surpreender, iluminar, di-
vertir, mover... Mas aí entramos na área do
talento, que também não tem nada a ver
com gramática.) A gramática é o esqueleto
[35] da língua. Só predomina nas línguas mor-
tas, e aí é de interesse restrito a necrólo-
gos e professores de latim, gente em geral
pouco comunicativa. (...)
Claro que eu não disse isso tudo para
[40] meus entrevistadores. E adverti que minha
implicância com a gramática na certa se
devia à minha pouca intimidade com ela.
Sempre fui péssimo em Português. Mas –
isso eu disse – vejam vocês, a intimidade
[45] com a gramática é tão indispensável que
eu ganho a vida escrevendo, apesar da
minha total inocência na matéria. Sou um
gigolô das palavras. Vivo às suas custas.
E tenho com elas exemplar conduta de um
[50] cáften profissional. Abuso delas. Só uso
as que eu conheço, as desconhecidas são
perigosas e potencialmente traiçoeiras.
Exijo submissão. Não raro, peço delas fle-
xões inomináveis para satisfazer um gosto
[55] passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E ja-
mais me deixo dominar por elas. Não me
meto na sua vida particular. Não me inte-
ressa seu passado, suas origens, sua fa-
mília nem o que outros já fizeram com elas.
[60] Se bem que não tenho também o mínimo
escrúpulo em roubá-las de outro, quando
acho que vou ganhar com isto. As pala-
vras, afinal, vivem na boca do povo. (…)
VERÍSSIMO, Luís Fernando. O gigolô das palavras. 8ª ed. Porto Alegre: L&PM, 1982.
A figura de pensamento denominada “ironia” está presente no trecho: