WhatsApp é vício
[1] Estou no restaurante Gero, em São Paulo. Na mesa próxima, um casal de orientais. Cada um em
[2] seu celular. Durante a refeição não trocam uma palavra. Só teclam. Saem juntos, andando e teclando. Em
[3] outra ocasião, em Madri, um amigo convidou um grupo para jantar. Um dos convidados sacou o celular.
[4] Ficou conversando com a família no Brasil. E nem se interessou em conhecer o grupo de espanhóis na
[5] mesa!
[6] A vida com o celular é boa, mas tem armadilhas. Primeiro, a gente corre o risco de trabalhar o
[7] tempo inteiro. O chefe pode chamar a qualquer momento, com um assunto urgente. (Que no passado podia
[8] esperar até segunda-feira). Também se intromete em minha vida o tempo todo. Por exemplo, estou
[9] jantando com alguém. Ouve-se o toque. A pessoa se lança numa longa conversa, enquanto espero trucido
[10] o peixe em meu prato e tento fazer cara de paisagem. Juro, tento me acostumar. Tornou-se impossível falar
[11] com alguém sem que a pessoa atenda a algumas ligações, e fale pelo WhatsApp durante boa parte do
[12] papo, dividida entre nossa conversa e alguém que não sei. Ri, enquanto falo de um assunto sério. Mas está
[13] rindo do que escreveram do outro lado. É muito estranho. Reconheço: o WhatsApp tem vantagem. Tenho
[14] dois grupos familiares, um com minhas sobrinhas e outro com meus irmãos. Estamos sempre atualizados
[15] sobre nossas vidas. Sem dúvida a internet une as pessoas. Mas também separa. Porque há quem não
[16] consiga parar de teclar. […]
CARRASCO, Walcyr. In: Revista Época, 25 ago. 2015. (adaptado)
Considere as afirmações abaixo.
I - As ocasiões descritas no restaurante Gero e em Madri são alvo de estranhamento por parte do autor.
II - O autor manifesta sua indiferença em relação a situações que vivencia e/ou presencia em virtude do uso excessivo e por vezes descabido do WhatsApp.
III - Para o autor, a tecnologia mostra-se essencialmente prejudicial às relações humanas.
Quais estão corretas?