TEXTO
Tropeços - A graça e a lógica de certos enganos da fala
O compenetrado pintor de paredes olhou as grandes manchas que se expandiam por todo o teto do banheiro do nosso apartamento, as mais antigas já negras, umas amarronzadas, outras esverdeadas, pediu uma escada, subiu, desceu, subiu, apalpou em vários pontos e deu seu diagnóstico:
- Não adianta pintar. Aqui tem muita "humildade".
Levei segundos para compreender que ele queria dizer "umidade". E consegui não rir. Durante a conversa, a expressão surgiu outras vezes, não escapara em falha momentânea.
Há palavras que são armadilhas para os ouvidos, mesmo de pessoas menos humildes. São captadas de uma forma, instalam-se no cérebro com seu aparato de sons e sentidos - sons parecidos e sentidos inadequados - e saltam frescas e absurdas no meio de uma conversa. São enganos do ouvido, mais do que da fala. Como o tropeção de uma pessoa de boas pernas não é um erro do caminhar, mas do ver.
Resultam muitas vezes formas hilárias. O zelador do nosso prédio deu esta explicação por não estar o elevador automático parando em determinados andares:
- O computador entrou em "pânico".
Não sei se ele conhece a palavra "pane". Deve ter sido daquela forma que a ouviu e gravou. Sabemos que é "pane", ele assimilou "pânico" - a coisa que nomeamos é a mesma, a comunicação foi feita. Tropeço também é linguagem.
[...]
ÂNGELO, Ivan. Tropeços; a graça e a lógica de certos enganos da fala. Veja São Paulo, 23/04/2003.
Marque V para verdadeiro e F para falso nas seguintes proposições:
( ) Ao dizer que no banheiro tinha muita “humildade”, o pintor de paredes demonstra falta de atenção ao falar.
( ) Quando o autor do texto afirma que “Tropeço também é linguagem.”, ele está afirmando que houve falha na comunicação, assim como o tropeço é uma falha no caminhar.
( ) Na fala do porteiro: “- O computador entrou em "pânico".”, o ouvinte entendeu porque tem conhecimento prévio de que o que ele queria dizer era “pane” (ou seja, a comunicação só foi possível porque um dos interlocutores já sabia a intenção do outro).
( ) Os exemplos de tropeços linguísticos citados pelo autor demonstram claramente seu preconceito linguístico em relação àqueles falantes, uma vez que, como escritor, ele é conhecedor da norma padrão da língua e faz chacota daqueles que não a conhecem.
( ) As armadilhas exemplificadas no texto resultam do desconhecimento exato da forma das palavras e de seu significado ou porque têm som semelhante ao de outras e são empregadas equivocadamente.
A sequência CORRETA é: