TEXTO 1
[1] José Leal fez uma reportagem na Ilha das Flores, onde ficam os imigrantes logo que chegam. E
falou dos equívocos de nossa política imigratória. As pessoas que ele encontrou não eram agricultores e
técnicos, gente capaz de ser útil. Viu músicos profissionais, bailarinas austríacas, cabeleireiras lituanas.
Paul Balt toca acordeão, Ivan Donef faz coquetéis, Galar Bedrich é vendedor, Serof Nedko é ex-oficial,
[5] Luigi Tonizo é jogador de futebol, Ibolya Pohl é costureira. Tudo gente para o asfalto, “para entulhar as
grandes cidades”, como diz o repórter.
O repórter tem razão. Mas eu peço licença para ficar imaginando uma porção de coisas vagas, ao
olhar essas belas fotografias que ilustram a reportagem. Essa linda costureirinha morena de Badajoz,
essa Ingeborg que faz fotografias e essa Irgard que não faz coisa alguma, esse Stefan Cromick cuja
[10] única experiência na vida parece ter sido vender bombons – não, essa gente não vai aumentar a
produção de batatinhas e quiabos nem plantar cidades no Brasil Central.
É insensato importar gente assim. Mas o destino das pessoas e dos países também é, muitas
vezes, insensato: principalmente da gente nova e países novos. A humanidade não vive apenas de
carne, alface e motores. Quem eram os pais de Einstein, eu pergunto; e se o jovem Chaplin quisesse
[15] hoje entrar no Brasil acaso poderia? Ninguém sabe que destino terão no Brasil essas mulheres louras,
esses homens de profissões vagas. Eles estão procurando alguma coisa: emigraram. Trazem pelo
menos o patrimônio de sua inquietação e de seu apetite de vida. Muitos se perderão, sem futuro, na
vagabundagem inconsequente das cidades; uma mulher dessas talvez se suicide melancolicamente
dentro de alguns anos, em algum quarto de pensão. Mas é preciso de tudo para fazer um mundo; e cada
[20] pessoa humana é um mistério de heranças e de taras. Acaso importamos o pintor Portinari, o arquiteto
Niemeyer, o físico Lattes? E os construtores de nossa indústria, como vieram eles ou seus pais? Quem
pergunta hoje, e que interessa saber, se esses homens ou seus pais ou seus avós vieram para o Brasil
como agricultores, comerciantes, barbeiros ou capitalistas, aventureiros ou vendedores de gravata? Sem
o tráfico de escravos não teríamos tido Machado de Assis, e Carlos Drummond seria impossível sem
[25] uma gota de sangue (ou uísque) escocês nas veias, e quem nos garante que uma legislação exemplar
de imigração não teria feito Roberto Burle Marx nascer uruguaio, Vila Lobos mexicano, ou Pancetti
chileno, o general Rondon canadense ou Noel Rosa em Moçambique? Sejamos humildes diante da
pessoa humana: o grande homem do Brasil de amanhã pode descender de um clandestino que neste
momento está saltando assustado na praça Mauá, e não sabe aonde ir, nem o que fazer. Façamos uma
[30] política de imigração sábia, perfeita, materialista; mas deixemos uma pequena margem aos inúteis e aos
vagabundos, às aventureiras e aos tontos porque dentro de algum deles, como sorte grande da
fantástica loteria humana, pode vir a nossa redenção e a nossa glória.
(BRAGA, R. Imigração. In: A borboleta amarela. Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1963)
Assinale a opção em que há metonímia.