TEXTO 2
[1] Nos estudos de antropologia política de Pierre Clastres*, estudioso francês que conviveu durante
muito tempo com tribos indígenas sul-americanas, menciona-se o fato de frequentemente os membros
dessas tribos designarem a si mesmos com um vocábulo que em sua língua era sinônimo de “os
homens” e reservavam para seus congêneres de tribos vizinhas termos como “ovos de piolho”, “sub
[5] homens” ou equivalentes com valor pejorativo.
Trago esta referência – que Clastres denomina etnocentrismo – eloquente de uma xenofobia em
sociedades primitivas, porque ela é tentadora para propor origens precoces, quem sabe constitucionais
ou genéticas, no ódio ou recusa das diferenças.
A mesma precocidade, dizem alguns, encontra-se nas crianças. Uma criança uruguaia, com clara
[10] ascendência europeia, como é comum em nosso país, resultado do genocídio indígena, denuncia, entre
indignada e temerosa, sua repulsa a uma criança japonesa que entrou em sua classe (fato raro em
nosso meio) e argumenta que sua linguagem lhe é incompreensível e seus traços são diferentes e
incomuns.
Se as crianças e os primitivos reagem deste modo, poder-se-ia concluir – precipitadamente – que
[15] o que manifestam, de maneira tão primária e transparente, é algo que os desenvolvimentos posteriores
da civilização tornarão evidente de forma mais complexa e sofisticada, mas com a mesma contundência
elementar.
Por esse caminho, e com a tendência humana a buscar causalidades simples e lineares, estamos
a um passo de “encontrar” explicações instintivas do ódio e da violência, em uma hierarquização em que
[20] a natureza precede a cultura, território de escolha das argumentações racistas. A “natureza” – o
“biológico” como “a” origem ou “a” causa – operam como explicação segura e tranquilizadora ante
questões que nos encurralam na ignorância e na insegurança de um saber parcial. [...]
(*) Pierre Clastres (1934-1977)
(VIÑAR, M. O reconhecimento do próximo. Notas para pensar o ódio ao estrangeiro. In: Caterina Koltai (org.) O estrangeiro. São Paulo: Escuta; Fapesp, 1998)
No Texto 2, pode-se depreender que a xenofobia