Atenção: A questão refere-se ao texto que vem a seguir.
Literatura e realidade
Hoje está na moda dizer que uma obra literária é constituída mais a partir de outras obras, que a precederam, do que em função de estímulos diretos da realidade, pessoal, social ou física. Deve haver boa dose de verdade nisso. Todas as vezes, dizia Proust1 , que um grande artista nasce, é como se o mundo fosse criado de novo, porque nós começamos a enxergá-lo conforme ele o mostra.
Para o Naturalismo, a obra era essencialmente uma transposição direta da realidade, como se o escritor conseguisse ficar diante dela na situação de puro sujeito em face do objeto puro, registrando (teoricamente sem interferência de outro texto) as noções e impressões que iriam constituir seu próprio texto. Essa estética repousa na utopia da originalidade absoluta pela experiência imediata, que levava o escritor a desconfiar da influência mediadora de obras alheias.
Mas nós sabemos que, embora filha do mundo, a obra é um mundo, e que convém antes de tudo pesquisar nela mesma as razões que a sustêm como tal. A sua razão específica é a disposição dos núcleos de significado, formando uma combinação singular, segundo a qual a realidade do mundo foi reordenada, transformada, desfigurada ou até posta de lado, para dar nascimento ao outro mundo que a obra constitui.
Ver criticamente a obra é escolher um dos momentos do processo como plataforma de observação. Num extremo, é possível encará-la como uma duplicação da realidade, de maneira que o trabalho imitativo fique reduzido a um registro sem grandeza, pois se era para fazer igual, por que não deixar a realidade em paz? Já no outro extremo é possível ver a obra como um objeto manufaturado com arbítrio soberano, que alcança significação na medida em que nada tem a ver com a realidade. Mas seria melhor a visão que pudesse rastrear na obra o mundo como material de origem, para surpreender no processo vivo da montagem a singularidade da forma segundo a qual se dá a ver um mundo novo.
Obs.:1 Marcel Proust (1871-1922): romancista, ensaísta e crítico literário francês, autor de Em Busca do Tempo Perdido, publicada em sete volumes.
(Adaptado de: CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2013, p. 107-108)
Na elaboração de sua poesia, João Cabral de Melo Neto não teve dúvida em amadurecer um projeto radical de linguagem, de caráter programático, pelo qual sua expressão poética adota uma rígida disciplina formal.
Por conta disso, muitas passagens de sua poesia traduzem um compromisso com o necessário rigor da forma, tal como se vê nestes versos: