Anatomia do tédio
O sentimento do tédio (livrai-vos dele, jovens!) é uma moléstia pela qual passamos sem ver, mas que respiramos. Mulheres e homens vivemos uma época de faltas: falta de tempo, de sono, de repouso, de dinheiro, de amor, de convivência, de variedade, de coesão familiar, de comicidade, de cordialidade, de simplicidade. Vivemos, em contrapartida, uma época de excessos: excesso de ansiedade, de trabalho, de burocracia, de hostilidade, de pagamentos, de alarmes, de desagregação familiar, de ódios, de instabilidade.
A intensificação de um desses fatores, ou a ação difusa de todos, só poderá dificultar a passagem dos estímulos que nos impelem aos atos vitais. Em outras palavras: tal intensificação acabará por nos levar à malignidade do tédio.
Talvez o entediado ache consolo em grandes homens. “Se os macacos soubessem entediar-se”, dizia Goethe, o escritor e pensador olímpico, “poderiam ser homens”. Os imbecis não sofrem de tédio, garantiam os irmãos Goncourt.
Cinema, automóvel, jogo, loteria, álcool, futebol, viagens, novo casamento − eis alguns remédios mais ou menos triviais ou perigosos, que o homem moderno vem ministrando a si mesmo contra o tédio, numa sociedade em que não faltam chatos e chateados.
(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. O amor acaba. São Paulo: Companhia das Letras, 2013, p. 49-51)
O sentimento maligno do tédio, tal como se argumenta no texto, deriva