Parte do Coral humano
Que boa sensação a de cada um de nós, cronistas, de repente não precisar mais escrever, a de ser apenas uma parte do Coral humano, um grito em meio às vozes que gritam “gol!”, um gemido noturno entre os muitos gemidos na imensa e fria enfermaria de um hospital de indigentes... E que absurda e amiga paz a de saber que a lua e a flor não deixam de ser a lua e a flor porque não registramos seus nomes...
Poder dizer: vivi entre o que viveu. Fui multidão e povo, um lugar ocupado, uma rescendência de suor, uma voz que pediu licença, um olhar que mendigou prazeres. Das minhas mãos, prefiro não contar, a não ser na custosa confissão de que foram mãos vadias, que não se aplicaram em algum esforço máximo. De bem, elas fizeram a bênção e o carinho, mas um carinho vadio, sem precisão de recompensa.
Prevalecerá, assim, apenas um Existente na multidão, um corista, aquele que não foi o solista de beleza alguma e que, por isso, se sente sem reponsabilidade alguma de eventuais erros cometidos, que nada tiveram de especial que pudesse destacá-los.
Deve-se viver em multidão. Viver entre os que, simplesmente, estiverem vivendo. A vida coral nos alivia da obrigação do êxito, da epopeia, sobretudo do êxito fabricado ou cínico. E sempre desconfiar dos feitos pessoais que são repetida e enfaticamente comemorados, como se a vida de cada um dependesse de alguma celebração gloriosa.
(Adaptado de: MARIA, Antônio. O Jornal de Antônio Maria. Rio de Janeiro: Saga, 1968, p. 47-49)
Está correto o emprego do elemento sublinhado na frase: