INSTRUÇÃO: Responder à questão com base no texto.
TEXTO
Resíduo
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
(...)
[5] Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
[10] nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
(...)
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
[15] que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
[20] no poço?
(...)
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
[25] Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
[30] e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
[35] e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo
Às vezes um botão. Às vezes um rato.
Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Dos 19 substantivos que seguem a expressão “e sob”, entre as linhas 26 e 35, apenas cinco estão caracterizados. Essa estratégia do poeta demonstra a presença, no poema, do viés