TEXTO 3
Disfarçando o ressentimento, fingindo indiferença, o pajé quer saber que remédio
Noel deu à índia. O intérprete traduz, pedindo desculpas: espera que o doutor não se
ofenda com o pedido, afinal não é obrigado a revelar os seus segredos. Mas o bonachão
Noel não se faz de rogado; tira da maleta um frasco com penicilina e entrega-o ao pajé –
tome, é presente. O índio pega com cautela o frasco, examina com atenção o conteúdo.
É um pó branco. A aparência é inocente, mas o pajé não tem dúvida: ali está
concentrada uma tremenda energia, uma energia superior à de todas as suas plantas,
todas as suas rezas, todas as suas fumigações. E como sabe disso? Por causa da
brancura, aquela implacável brancura. O pajé é obrigado a admitir: nunca viu algo tão
branco. A lua não é tão branca quanto esse pó, as nuvens não são tão brancas quanto
esse pó. A carne de peixe (e de peixe o pajé gosta muito, pagam-lhe em peixe muitas
curas, peixinhos pequenos no caso de doenças pouco graves, peixes grandes quando
recupera moribundos, e há um enorme peixe, capaz até de engolir uma pessoa, reservado
para o grande milagre que ainda fará, ressuscitando um morto) não é tão branca. Nem o
homem branco é tão branco, porque os brancos na verdade não são brancos, uns são
morenos, outros mulatos, e Noel, a pele de Noel é rosada. O branco do olho talvez seja
quase tão branco quanto esse pó – mas quem dá importância ao branco do olho? Para o
pajé, o branco do olho nada diz, a não ser quando se tinge de amarelo, o que é mau
sinal, sinal de doença grave.
SCLIAR, Moacyr. A Majestade do Xingu, São Paulo: Companhia das Letras, 2009, pp. 113 e 114.
Em relação à oração “pagam-lhe em peixe muitas curas” (linhas 11 e 12), assinale a alternativa incorreta quanto à regência verbal.