TEXTO 3
[1] Acordei maldormida, por conta do frio, mas sem dor no corpo, a rodoviária já se enchendo de gente,
juntei meus teréns e fui tomar café na bodeguinha da minha conterrânea, que àquela hora, bem cedo, já
havia reassumido seu posto. Vai lá no Campo da Tuca, vai!, que Deus vai ajudar, você acha notícia do
rapaz. Me liga, que eu vou perguntar ao meu filho se já encontrou alguma vez esse Cícero. E dê notícia,
[5] se achar! Eu dava notícia, ∼, achasse ou não.
Saí da rodoviária com Cícero redivivo e um problema: a roupa lavada ainda por acabar de secar, não
dava pra enfiar assim na mochila, junto com os livros e o resto, nem pra sair pelo mundo carregando
aquilo feito um estandarte e dava pena jogar no lixo. Fazia sol.
Voltei pra pracinha do bispo, sentei-me por lá, estendi a roupa molhada, as franjas da ponta da toalha
[10] por cima do fundilho da calcinha, pra disfarçar, o par de meias ao lado, e meti a cara num livro, fingindo
não perceber quem passava e ria do meu quarador. Eu já devia parecer uma inegável moradora de rua.
E não era, Barbie? Ainda não tinha me dado conta, mas já era, ∼, tanto que lá pro meio da manhã ouvi
um rangido próximo, senti movimento, alguém sentando bem junto de mim, um quase gemido: Ai, que
canseira essa vida, né? Tu é nova por aqui, veio de onde? Tão acostumada a essa pergunta, respondi Da
[15] Paraíba antes mesmo de levantar os olhos do livro e dar com a figura que se achegava um pouco mais.
A mulher era bem mais velha que eu, à primeira vista parecia gorda, de tanta roupa vestida, uma por
cima da outra, mas bastava reparar melhor no rosto, nos pulsos e mãos descarnados, nas canelas finas
aparecendo por baixo das muitas saias pra ver o engano. Era uma ruína, pobrezinha, pensei, até encará-
la e perceber o brilho vivo, curioso e esperto dos olhos azuis, inacreditavelmente limpos e vivos, o azul,
[20] azul, o branco, perfeitamente branco.
REZENDE, Maria Valéria. Quarenta dias. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014. pp. 194 e 195.
Assinale a alternativa incorreta em relação à obra Quarenta dias, Maria Valéria Rezende, e ao Texto 3.