Texto 2
MUITOS ANOS DE ASILO.
NINGUÉM OS QUIS.
NEM A COR NEM A IDADE CERTAS.
FICARAM LÁ.
E FICARAM ATÉ DEPOIS QUE SAÍRAM.
GUARADARAM O APELIDO.
ELE, 36.
ELA, 37.
ERAM OS NÚMEROS QUE MARCAVAM AS ROUPAS.
E AS CAMAS.
OS NÚMEROS DA CHAMADA.
DAS CADEIRAS DO CAFÉ DA MANHÃ.
ELA SE FORMOU PROFESSORA.
ELE, DEPOIS DE TUDO,
PASSOU A DETESTAR MOTO.
E, POR ISSO MESMO,
FOI SER MOTOBOY.
TINHA OUTRO TRABALHO.
VENDIA INFORMAÇÃO.
COM OU SEM FOTOS DE CELULAR.
SEMPRE QUE VIA ALGUMA COISA.
NAS RUAS, NAS ANDANÇAS.
VENDIA PARA UM PORTAL DE NOTÍCIAS.
UMA MERRECA.
MAS DIVERTIA.
AH, E NUNCA TREPARAM.
NUNCA.
NÃO ERA ESSE O LANCE DELES.
VIGNA, Elvira. Vitória Valentina, Ed. Lamparina, 2016.
Assinale a alternativa incorreta em relação à obra Vitória Valentina, Elvira Vigna, e ao Texto 2.
Texto 1
[1] Veja só, Barbie, daqueles primeiros dias da minha quarentena parece que lembro cada
detalhe do que vi, pensei, senti... estava me aventurando pelo desconhecido, tinha de
estar alerta e atenta a tudo. Já não sou capaz de reproduzir, assim, detalhadamente, em
sequência quase exata, os caminhos que percorri depois que me soltei de uma vez, à
[5] deriva de corpo e alma. Esses já não eram propriamente caminhos, eram sucessivos
buracos, frestas, rachaduras na superfície da cidade pelas quais eu ia passando de
mundo em mundo, ou era vagar por mundo nenhum...
Eu nem percebi, naquele dia, quando saí de casa atrás de um quase imaginário, um
vago Cícero Araújo, que estava, na verdade, correndo atrás de um coelho branco de olhos
[10] vermelhos, colete e relógio, que ia me levar pra um buraco, outro mundo. Também, que
importância tinha? Acho que eu teria ido de qualquer jeito, só para cair em algum mundo,
sair daquele estado de suspensão da minha vida num entremundo, sem nem por um
momento me perguntar como nem pra onde havia de voltar
Que engraçada é a cabeça da gente, não é, Barbie?, mas você não deve perceber
[15] que mistério é cabeça de gente, você não é gente, sua pobre cabecinha oca. Afe, cansei.
Agora acho que preciso parar de escrever, inventar um jantar. Não lhe ofereço pra não
atrapalhar sua dieta e não estragar sua cinturinha tão incrível. Cansei de tanto andar com
esta caneta pelas suas linhas, desde muito pra lá da Protásio até a Bento. Mas, “be a
good girl”, fique quieta aí, durma bem, que amanhã mesmo volto cedo pra fazer você subir
[20] comigo à Vila Maria Degolada. Fique tranquila: ali não há mais o costume de degolarem
Marias e nem sequer de jogar xadrez com peças vivas. Nem eu nem você somos Marias
REZENDE, Maria Valéria. Quarenta dias. I Ed. Objetiva, Rio de Janeiro, 2014, p.102.
Texto 1
[1] Veja só, Barbie, daqueles primeiros dias da minha quarentena parece que lembro cada
detalhe do que vi, pensei, senti... estava me aventurando pelo desconhecido, tinha de
estar alerta e atenta a tudo. Já não sou capaz de reproduzir, assim, detalhadamente, em
sequência quase exata, os caminhos que percorri depois que me soltei de uma vez, à
[5] deriva de corpo e alma. Esses já não eram propriamente caminhos, eram sucessivos
buracos, frestas, rachaduras na superfície da cidade pelas quais eu ia passando de
mundo em mundo, ou era vagar por mundo nenhum...
Eu nem percebi, naquele dia, quando saí de casa atrás de um quase imaginário, um
vago Cícero Araújo, que estava, na verdade, correndo atrás de um coelho branco de olhos
[10] vermelhos, colete e relógio, que ia me levar pra um buraco, outro mundo. Também, que
importância tinha? Acho que eu teria ido de qualquer jeito, só para cair em algum mundo,
sair daquele estado de suspensão da minha vida num entremundo, sem nem por um
momento me perguntar como nem pra onde havia de voltar
Que engraçada é a cabeça da gente, não é, Barbie?, mas você não deve perceber
[15] que mistério é cabeça de gente, você não é gente, sua pobre cabecinha oca. Afe, cansei.
Agora acho que preciso parar de escrever, inventar um jantar. Não lhe ofereço pra não
atrapalhar sua dieta e não estragar sua cinturinha tão incrível. Cansei de tanto andar com
esta caneta pelas suas linhas, desde muito pra lá da Protásio até a Bento. Mas, “be a
good girl”, fique quieta aí, durma bem, que amanhã mesmo volto cedo pra fazer você subir
[20] comigo à Vila Maria Degolada. Fique tranquila: ali não há mais o costume de degolarem
Marias e nem sequer de jogar xadrez com peças vivas. Nem eu nem você somos Marias
REZENDE, Maria Valéria. Quarenta dias. I Ed. Objetiva, Rio de Janeiro, 2014, p.102.