“Um dos horrores de qualquer reclusão é nunca se poder estar só. No meio
daquela multidão, há sempre um que nos vem falar isto ou aquilo. No Hospício, eu
ressenti esse incômodo que só pode ser compreendido por quem já se viu recolhido a
qualquer prisão; lá, porém, é pior do que em outra qualquer, sobretudo quando se está
5. perfeitamente lúcido, como eu estava, e não pode, por piedade, tratar com mau humor os
outros companheiros, que são doentes.
Logo, no primeiro dia, travei eu conhecimento com esse agudo e miúdo suplício,
próprio ao meu estado. O chefe Carneiro tinha-me informado onde era a minha cama e o
meu dormitório. Sentia-me fatigado de espírito, desejoso de interrogar-me a mim mesmo,
10. de pensar nos meus problemas íntimos, de fugir um instante daquele brouhaha¹
hospitalar. Deitei-me na cama e quis recordar-me dos episódios da minha entrada, das
tolices que fizera. Sempre fiz esse exercício de memória, que julgava conveniente para
conservá-la sempre fiel e pronta para o que apelasse para ela. Não tinha bem começado,
quando um menino, que até ali não tinha visto, veio para junto de mim:
15. - O senhor me dá um cigarro?
Dei-lhe o cigarro e esperava que, após acendê-lo, se fosse, mas assim não foi.
Continuou:
- O senhor sofre de ataques?
Disse-lhe que não e olhei bem a criança. Não devia ter dezessete anos; era forte e
20. simpático. Lembrei-me logo de meu filho e uma mágoa imensa me invadiu, pensando no
destino dele. Vi-o ali, daqui a anos, talvez. Perguntei ao rapazola:
- Por quê? Você sofre?”
¹ Onomatopeia para tumulto, algaravia, algazarra.
Fonte: Barreto, Lima. Diário do Hospício; O cemitério dos vivos; prefácio Alfredo Bosi; organização e notas Augusto/Massi, Murilo Marcondes de Moura. 1 ed. São Paulo:Companhia das Letras 2017, pp.187 e 188.
Analise as proposições em relação à obra O cemitério dos vivos, Lima Barreto, ao Texto 4, e assinale (V) para verdadeira e (F) para falsa.
( ) Da leitura da obra, infere-se a intenção do autor em relatar as classes sociais e as devidas benesses, uma vez que os doentes do hospício eram tratados de maneira diversa a depender dos títulos e das posses familiares dos internos.
( ) O título e a leitura da obra levam o leitor a inferir que à época em que a narrativa romanesca se passa, não havia tratamento específico para determinadas insanidades. Toda “loucura” era tratada da mesma forma.
( ) Em “Lembrei-me logo de meu filho” (linha 20) o verbo destacado, quanto à regência, é transitivo direto, uma vez que está acompanhado do pronome pessoal.
( ) No período “Perguntei ao rapazola:” (linha 21) o sinal de pontuação, dois pontos, foi empregado para esclarecer e exemplificar o que foi anunciado na oração anterior, pois o rapaz tinha as mesmas características físicas que seu filho.
( ) Na estrutura “No meio daquela multidão, há sempre um que nos vem falar isto ou aquilo” (linhas 1 e 2), as palavras destacadas são pronomes substantivos demonstrativos e referem-se, no texto, de modo geral, a qualquer comentário, qualquer conversa.
Assinale a alternativa que indica a sequência correta, de cima para baixo.