TEXTO
[...]
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta,
cercava a criaturinha. Silêncio completo,
nenhum sinal de vida nos arredores. O galo
velho não cantava no poleiro, nem Fabiano
[120] roncava na cama de varas. Estes sons não
interessavam Baleia, mas quando o galo
batia as asas e Fabiano se virava,
emanações familiares revelavam-lhe a
presença deles. Agora parecia que a
[125] fazenda se tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os
queixos desgovernados, a língua pendente
e insensível. Não sabia o que tinha
sucedido. O estrondo, a pancada que
[130] recebera no quarto e a viagem difícil no
barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no
seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre as
pedras que serviam de trempe. Antes de se
[135] deitar, sinhá Vitória retirava dali os carvões
e a cinza, varria com um molho de
vassourinha o chão queimado, e aquilo
ficava um bom lugar para cachorro
descansar. O calor afugentava as pulgas, a
[140] terra se amaciava. E, findos os cochilos,
numerosos preás corriam e saltavam, um
formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e
chegava ao peito de Baleia. Do outro peito
[145] para trás era tudo insensibilidade e
esquecimento. Mas o resto do corpo se
arrepiava, espinhos de mandacaru
penetravam na carne meio comida pela
doença.
[150] Baleia encostava a cabecinha fatigada na
pedra. A pedra estava fria, certamente
sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se
muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num
[155] mundo cheio de preás. E lamberia as mãos
de Fabiano, um Fabiano enorme. As
crianças se espojariam com ela, rolariam
com ela num pátio enorme, num chiqueiro
enorme. O mundo ficaria todo cheio de
[160] preás, gordos, enormes.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas, 82ª ed. Rio de Janeiro: Record. 2001. p. 85-91.
Ao utilizar o termo dormir no enunciado “Baleia queria dormir.
Acordaria feliz, num mundo cheio de preás” (linhas 154-155), o escritor cria