I.
Ternura
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus
[ouvidos.
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
5 Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das
[promessas
10 Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de
[carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem
[fatalidade o olhar extático aurora.
MORAES, Vinícius de. Ternura. Antologia poética. 16. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1978. p. 76.
II.
Amar e ser amado
Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
5 Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
10 Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
15 Como um anjo feliz... que pensamento!?
ALVES, Castro. Amar sem ser amado. Disponível em:. Acesso em: 16 out. 2013.
Os versos do texto I revelam que o sujeito poético