[1] Depois entrou em casa: entrou e parece que não gostou ou não entendeu. Foi perguntando onde é que ficava
o elevador. E sabendo que não havia elevador, indagou como é que se ia para cima. Nós explicamos que não
havia lá em cima. Ele ficou completamente perplexo e quis saber onde é que o povo morava. E não acreditou
direito quando lhe afirmamos que não havia mais povo, só nós. Calou-se, percorreu o resto da casa e as
[5] dependências, se aprovou, não disse. Mas, à porta da sala de jantar, inesperadamente, deu com o quintal.
Perguntou se era o Russell. Perguntou se tinha escorrega, se tinha gangorra. Perguntou onde é que estavam
“os outros meninos”. Claro que achava singular e até meio suspeito aquela porção de terra e árvores sem
ninguém dentro.
Todas essas observações, fê-las ainda do degrau da sala. Afinal, estirou tentativamente a ponta do pé, tateou
[10] o chão, resolveu explorar aquela floresta virgem. Sacudia os galhos baixos das fruteiras, arrancava folhas que
mastigava um pouco, depois cuspia. Rodeou o poço, devagarinho, sem saber o que havia por trás daquele
muro redondo e branco, coberto de madeira. Enfim, chegou debaixo da goiabeira grande, onde se via uma
goiaba madura, enorme. Declarou então que queria comer aquela pêra. Lembrei-me do Padre Cardim – não
era o Padre Cardim? – que definia goiabas como “espécie de peros, pequenos no tamanho” –, onde se vê
[15] que os clássicos e as crianças acabam sempre se encontrando. Decerto porque uns e outros vão apanhar a
verdade nas suas fontes naturais.
(QUEIROZ, R. Conversa de menino. São Paulo: Global, 2004. p.114-115. (Coleção Melhores Crônicas).)
Releia o trecho a seguir.
Afinal, estirou tentativamente a ponta do pé, tateou o chão, resolveu explorar aquela floresta virgem.
Quanto ao emprego da expressão sublinhada, assinale a alternativa correta.