Olhou para trás; não viu ninguém; o perseguidor não o acompanhara até ali. Podia vir, entretanto; Duarte ergueu-se a custo, subiu os quatro degraus que lhe faltavam, e entrou na casa, cuja porta, aberta, dava para uma sala pequena e baixa.
Um homem que ali estava, lendo um número do Jornal do Comércio, pareceu não o ter visto entrar. Duarte caiu numa cadeira. Fitou os olhos no homem. Era o major Lopo Alves. O major, empunhando a folha, cujas dimensões iam-se tornando extremamente exíguas, exclamou repentinamente:
– Anjo do céu, estás vingado! Fim do último quadro.
uarte olhou para ele, para a mesa, para as paredes, esfregou os olhos, respirou à larga.
– Então! Que tal lhe pareceu?
– Ah! excelente! respondeu o bacharel, levantando-se.
– Paixões fortes, não?
– Fortíssimas. Que horas são?
– Deram duas agora mesmo.
Duarte acompanhou o major até a porta, respirou ainda uma vez, apalpou-se, foi até à janela. Ignora-se o que pensou durante os primeiros minutos; mas, ao cabo de um quarto de hora, eis o que ele dizia consigo: – Ninfa, doce amiga, fantasia inquieta e fértil, tu me salvaste de uma ruim peça com um sonho original, substituíste-me o tédio por um pesadelo: foi um bom negócio. Um bom negócio e uma grave lição: provaste-me ainda uma vez que o melhor drama está no espectador e não no palco.
(ASSIS, M. Papéis avulsos. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011. p.124-125.)
Com base no trecho e no conto, considere as afirmativas a seguir.
I. A passagem selecionada assinala o término do sonho da personagem Duarte, motivado pela leitura da monótona peça do major Lopo Alves.
II. Nesta passagem, o narrador se equivoca ao dizer que o major Lopo Alves lia um número do Jornal do Comércio. Ele não identifica nas mãos da personagem uma obra dramática.
III. Conforme registram os termos “quadro”, “peça”, “drama”, “espectador” e “palco”, bem como a recorrência do sinal de travessão a marcar a mudança de interlocutores, o conto “A chinela turca” apresenta uma estrutura de peça teatral.
IV. Embora não reconheça de imediato, a personagem Duarte, no afã de se esconder, acaba por adentrar em um espaço que se revelará ser sua própria casa.
Assinale a alternativa correta.