Leia o fragmento, a seguir, retirado do livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, e responda à questão.
Quando o médico nos levou para a sala e meu pai lhe mostrou a língua como uma flor murcha entre as mãos, vi sua cabeça balançar num sinal de negação. Vi também o suspiro que deu ao abrir nossas bocas quase ao mesmo tempo. Ela terá que ficar aqui. Terá problemas na fala, para deglutir. Não tem como reimplantar. Hoje sei que se diz assim, mas à época nem passava por minha cabeça o que tudo aquilo significava, e muito menos na cabeça de meu pai e de minha mãe. Belonísia nesse instante nem sequer me olhava, mas ainda continuávamos unidas.
Nossas feridas foram suturadas, e permanecemos juntas por mais dois dias. Saímos com um carregamento de antibióticos e analgésicos nas mãos. Teríamos que voltar dali a duas semanas para retirar os pontos. Teríamos que comer mingaus e purês, alimentos pastosos. Minha mãe deixaria o trabalho na roça nas semanas que se seguiriam para se dedicar integralmente aos nossos cuidados. Somente uma das filhas teria a fala e a deglutição prejudicadas. Mas o silêncio passaria a ser o nosso mais proeminente estado a partir desse evento.
Nunca havíamos saído da fazenda. Nunca tínhamos visto uma estrada larga com carros passando para os dois lados, seguindo para os mais distantes lugares da Terra. [...].
(VIEIRA JUNIOR, Itamar. Torto Arado. São Paulo: Todavia, 2019. p. 19.)
Considerando a obra e o fragmento, assinale a alternativa correta.