A escritora Raquel de Queiroz nasceu em Fortaleza, Ceará. Em 1927, além de atuar como professora primária, começou a colaborar em um jornal com poemas e crônicas. Apresentamos a seguir uma das crônicas publicadas na época. Trata-se de uma crônica do livro Cenas Brasileiras. Leia o texto II com atenção para responder à questão.
TEXTO
METONÍMIA, OU A VINGANÇA DO ENGANADO
Metonímia – a palavra me ficou na memória desde o ano de 1930, quando publiquei o meu livro de estreia, aquele romance de seca chamado O Quinze. Um crítico, examinando a obrinha, censurava-me porque, em certo trecho da história, eu falava que o galã saíra a andar “com o peito entreaberto na blusa”. “Que disparate é esse?”, indagava o sensato homem. “Deve - se dizer é: blusa entreaberta no peito”. Aceitei a correção com humildade e acanhamento, mas aí o meu ilustre professor de Latim, Dr. Matos Peixoto, acudiu em meu consolo. Que estava direito como eu escrevera; que na minha frase eu utilizara uma figura de retórica, a chamada metonímia – tropo que consiste em transladar-se a palavra do seu sentido natural da causa para o efeito, ou do continente para o conteúdo. E citava o exemplo clássico: “taça espumante” – continente pelo conteúdo, pois não é a taça que espuma e∼o vinho. Assim sendo, “peito entreaberto” estava certo, era um simples emprego de metonímia. E juntos, numa nota de jornal, meu mestre e eu silenciamos o crítico. Não sei se o zoilo aprendeu a lição. Eu fui que a não esqueci mais. Volta e meia lá aplico a metonímia - acho mesmo que é ela a minha única ligação com a velha retórica.
QUEIROZ, Raquel. Cenas Brasileiras. São Paulo: Editora Ática, 1998. Volume 17. Crônicas.
Sabe-se que a crônica pertence a um gênero textual híbrido que pode se alternar entre a literatura e o jornalismo.
O texto apresenta traços característicos de crônica literária, porque mostra