20 de setembro ... Fui no emporio, levei 44 cruzeiros. Comprei um quilo de açucar, um de feijão e dois ovos. Sobrou dois cruzeiros. Uma senhora que fez compra gastou 43 cruzeiros. E o senhor Eduardo disse:
— Nos gastos quase que vocês empataram.
Eu disse:
— Ela é branca. Tem direito de gastar mais.
Ela me disse:
— A cor não influi.
Então começamos a falar sobre o preconceito. Ela disse-me que nos Estados Unidos eles não querem negros na escola.
Fico pensando: os norte-americanos são considerados os mais civilisados do mundo e ainda não convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol. O homem não pode lutar com os produtos da Natureza. Deus criou todas as raças na mesma epoca. Se criasse os negros depois dos brancos, aí os brancos podia revoltar-se.
JESUS, C. M. de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10ª ed., São Paulo: Ática, 2014, p. 122.
O registro espontâneo do cotidiano de Carolina Maria de Jesus caracteriza-se pela reflexão sobre as relações de poder que marcam a realidade social. No trecho do diário, publicado quando ainda havia, nos Estados Unidos, segregação racial em algumas unidades federadas, essa abordagem imprime-se pela
Resolução passo a passo com explicação detalhada
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