Correio da manhã - Sexta-feira, 28 de abril de 1905
Em todos estes países os bens da Ordem de Jesus foram confiscados, não sendo pois [de] admirar que, expulsos os discípulos de Loiola, em 1759, de Portugal e seus domínios pelo fogoso ministro de D. José I, procurassem a tempo salvaguardar os seus bens contra a lei de exceção aplicada em outros países, em seu prejuízo.
A hipótese, pois, de existirem no morro do Castelo, sob as fundações do vasto e velho convento dos jesuítas, objetos de alto lavor artístico, em ouro e em prata, além de moedas sem conta e uma grande biblioteca, tomou vulto em breve, provocando o faro arqueológico dos revolvedores de ruinarias e a auri sacra fames* de alguns capitalistas, que chegaram mesmo a se organizar em companhia, com o fim de explorar a empoeirada e úmida colchida dos Jesuítas. Isto foi pelos tempos do Encilhamento.
Sucessivas escavações foram levadas a efeito, sem êxito apreciável; um velho, residente em Santa Teresa, prestou-se a servir de guia aos bandeirantes da nova espécie, sem que de todo este insano trabalho rendesse afinal alguma coisa a mais que o pranto que derramaram os capitalistas pelo dinheiro despendido e o eco dos risos casquilhos de mofa, de que foram alvo por longo tempo os novos Robérios Dias**.
Estes fatos já estavam quase totalmente esquecidos, quando ontem novamente se voltou a atenção pública para o desgracioso morro condenado a ruir em breve aos golpes da picareta demolidora dos construtores da Avenida.
BARRETO, L. "O subterrâneo do Morro do Castelo". In: Obra reunida: vol. 3. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.
* Auri sacra fames: expressão em latim que pode ser traduzida como "maldita fome de ouro".
** Robério Dias era personagem do romance histórico As minas de prata (1865), de José de Alencar. De acordo com essa obra, cuja narrativa se passa no Brasil colonial, essa personagem era caracterizada como o conhecedor dos "segredos das minas de prata".
O trecho jornalístico de Lima Barreto, publicado originalmente em 1905, relata episódios relacionados à crença em um tesouro jesuítico escondido no Morro do Castelo, no Rio de Janeiro. Com ironia e crítica social, o autor comenta o comportamento dos envolvidos nessas buscas. Com base na leitura do trecho, a relação entre linguagem e contexto histórico revela
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