TEXTO:
Aprendendo a viver
Só esta expressão rosas silvestres já me faz
aspirar o ar como se o mundo fosse uma rosa crua.
Tenho uma grande amiga que me manda de quando em
quando rosas silvestres. E o perfume delas, meu Deus,
[5] me dá ânimo para respirar e viver.
As rosas silvestres têm um mistério dos mais
estranhos e delicados: à medida que vão envelhecendo
vão perfumando mais. Quando estão à morte, já
amarelando, o perfume fica forte e adocicado, e lembra
[10] as perfumadas noites de lua de Recife. Quando
finalmente morrem, quando estão mortas, mortas — aí
então, como uma flor renascida no berço da terra, é que
o perfume que se exala me embriaga. Estão mortas,
feias, em vez de brancas ficam amarronadas. Mas como
[15] jogá-las fora se, mortas, elas têm a alma viva? Resolvi a
situação das rosas silvestres mortas, despetalando-as
e espalhando as pétalas perfumadas na minha gaveta
de roupa.
Da última vez que minha amiga me mandou rosas
[20] silvestres, quando estas estavam morrendo e ficando
mais perfumadas ainda, eu disse para meus filhos:
Era assim que eu queria morrer: perfumando de
amor. Morta de exalando a alma viva.
Esqueci de dizer que as rosas silvestres são de
[25] planta trepadeira e nascem várias no mesmo galho.
Rosas silvestres, eu vos amo. Diariamente morro por
vosso perfume.
LISPECTOR, Clarice. Rosas silvestres Aprendendo a viver. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. p. 136-137.
No texto, em sua totalidade,