TEXTO V
O homem pensa ter na Cidade a base de toda
a sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a
sua miséria. Vê, Jacinto! Na Cidade perdeu ele a
força e beleza harmoniosa do corpo, e se tornou
[5] esse ser ressequido e escanifrado ou obeso e
afogado em unto, de ossos moles como trapos,
de nervos trêmulos como arames, com
cangalhas, com chinós, com dentaduras de
chumbo, sem sangue, sem fibra, sem viço, torto,
[10] corcunda esse ser em que Deus, espantado,
mal pôde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre
Adão!
Na Cidade findou a sua liberdade moral : cada
manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada
[15] necessidade o arremessa para uma
dependência: pobre e subalterno, a sua vida é
um constante solicitar, adular, vergar, rastejar,
aturar; rico e superior como um Jacinto, a
sociedade logo o enreda em tradições, preceitos,
[20] etiquetas, cerimônias, praxes, ritos, serviços mais
disciplinares que os de um cárcere ou de um
quartel... A sua tranquilidade (bem tão alto que
Deus com ela recompensa os santos) onde está,
meu Jacinto?
[25] Sumida para sempre, nessa batalha
desesperada pelo pão ou pela fama, ou pelo
poder, ou pelo gozo, ou pela fugidia rodela de
ouro!
Eça de Queiroz
Vocabulário
escanifrado - magro, enfraquecido
unto - gordura
chinós - cabeleira postiça, peruca
TEXTO VI
Este grafite está estampado ali no Parque dos Patins, um lugar
muito frequentado pelo público infantil, na Lagoa Rodrigo de Freitas
no Rio. Veja só. É uma mulher fantasiada, com um fuzil atravessado
nas costas, uma metralhadora na mão esquerda e uma pistola na
[5] direita. Lá no fundo, dá para ver o morro do Corcovado e o Cristo
Redentor. Deve haver quem ache que é arte de rua. A coluna acha
um horror. É apenas mais um retrato que emporcalha a paisagem
carioca. Com todo respeito.
Anselmo Gois.O Globo, 29/06/2010.
Quanto à construção linguística do Texto V e a legenda do Texto VI, pode-se afirmar que