A MENINA COM A MAÇÃ
Vimos que a neurociência e a linguística tratam de dois aspectos (como o cérebro funciona? O que é a linguagem?) do mesmo problema. A questão, assim, não é defender esta ou aquela filosofia da mente. A mente e o cérebro seriam duas entidades separadas ou, de acordo com a teoria da identidade, os processos mentais coincidiriam com os do sistema nervoso central? Ou deveríamos defender a tese do interacionismo, segundo a qual mente e cérebro se influenciam mutuamente? Como fazemos para compreender os outros? “Se vejo uma menina comendo uma maçã, como sei o que ela está fazendo e, ainda mais, como compreendo sua intenção, o porquê de sua ação?” São esses os termos do problema formulado pelo eminente neurologista Giacomo Rizzolatti.
[...] Os antropólogos sustentam, há muito tempo, a hipótese de que a linguagem nasceu ao longo da evolução do hominídeo, primeiro como linguagem de sinais, depois como articulação fonética. Apoiado em sua descoberta e auxiliado por hipóteses paleoantropológicas, Rizzolatti formulou uma tese sobre a evolução da linguagem segundo a qual a capacidade de organizar sons ou gestos expressivos para comunicar teria sido desenvolvida em um contexto no qual os símbolos estariam vinculados a operações do campo manual. Em outras palavras, a comunicação suporia a gesticulação e, mais importante, o impulso a imitar a concatenação de operações dos semelhantes, com a possibilidade de inibir a ação motora e transferir a imitação para o plano dos símbolos expressivos. A teoria de Rizzolatti sobre a origem da comunicação é conhecida como hipótese de “sistema espelho”.
A compreensão do outro, sugere Rizzolatti, está ligada a imagens que são antes imagens de gestos que traços acústicos, mas, depois, as imagens acústicas também passam a fazer parte dessa gramática simbólica da interação. O outro é agora uma presença intermitente dentro de mim, penetra em meu “cubículo” graças à gramática comum do gesto, que é também a gramática da palavra. “Enfim”, conclui Rizzolatti, “qualquer analogia entre cérebro e computador desmorona, não só por causa da diferença de funcionamento, mas pela lógica intrínseca do cérebro, que é estreitamente ligada ao mundo exterior e aos outros. O surpreendente vínculo entre a nossa ação e a dos outros pode estar na base do comportamento altruístico, como sugeriu recentemente Jean-Pierre Changeux, e representar a base natural, biológica, do comportamento ético.”
MENTE E CÉREBRO. Ano XIII. n. 151, São Paulo: Duetto Editorial, 2005. p. 65.
Altruístico: relativo a altruísmo, que significa amor ao próximo; abnegação, filantropia. (MICHAELIS, p. 117).
A compreensão do outro, sugere Rizzolatti, está ligada a imagens que são antes imagens de gestos que traços acústicos, mas, depois, as imagens acústicas também passam a fazer parte dessa gramática simbólica da interação. O outro é agora uma presença intermitente dentro de mim, penetra em meu “cubículo” graças à gramática comum do gesto, que é também a gramática da palavra. “Enfim”, conclui Rizzolatti, “qualquer analogia entre cérebro e computador desmorona, não só por causa da diferença de funcionamento, mas pela lógica intrínseca do cérebro, que é estreitamente ligada ao mundo exterior e aos outros. O surpreendente vínculo entre a nossa ação e a dos outros pode estar na base do comportamento altruístico, como sugeriu recentemente Jean-Pierre Changeux, e representar a base natural, biológica, do comportamento ético.”
MENTE E CÉREBRO. Ano XIII. n. 151, São Paulo: Duetto Editorial, 2005. p. 65.
Altruístico: relativo a altruísmo, que significa amor ao próximo; abnegação, filantropia. (MICHAELIS, p. 117).
No primeiro período do texto, há a informação de que a neurociência e a linguística tratam de dois aspectos do mesmo problema. Considerando o primeiro parágrafo, esse problema pode ser resumido com a seguinte questão: