Leia o excerto do poema de Afonso Felix de Sousa.
Diálogo com o pai, companheiro da infância e enamorado das estrelas
Depois de muita cabeçada,
os rumos não deram em nada
e o fim da estrada é outra estrada.
– E agora, pai?
– Meter o peito para a frente,
a favor ou contra a corrente:
de um desses matos, de repente
um coelho sai.
– Um coelho, mas não na medida
que quero.
– E que queres da vida?
– Ó pai, o que quero da vida?
O quê, meu pai?
– Tenhas ou não um sub-reptício
jeito de ser, viver é o ofício
de ir levantando um edifício
que se ergue, e cai.
– Mas vai indo, a gente se cansa
de dar tantas voltas na dança.
– Ora, filho, e a fé? e a esperança?
– E daí, pai?
– Como viste ou talvez não viste,
seja a música alegre ou triste,
o homem que é homem não desiste
e a si não trai.
– Mas acho o avesso tão direito!
De que massa estranha fui feito?
Por que esta alma assim sem jeito?
Por que, meu pai?
– Não bebas tanto esses venenos
da alma, e olha: não és mais nem menos
que os outros que vão ao teu lado.
Assim como eles, um recado
tens gravado na mão, lembrando
a Morte, não se sabe quando.
[...]
SOUSA, Afonso Felix de. Nova antologia poética. Goiânia: Cegraf/UFG, 1991. p. 28-29.
Depois de muita cabeçada,
os rumos não deram em nada
e o fim da estrada é outra estrada.
– E agora, pai?
– Meter o peito para a frente,
a favor ou contra a corrente:
de um desses matos, de repente
um coelho sai.
– Um coelho, mas não na medida
que quero.
– E que queres da vida?
– Ó pai, o que quero da vida?
O quê, meu pai?
– Tenhas ou não um sub-reptício
jeito de ser, viver é o ofício
de ir levantando um edifício
que se ergue, e cai.
– Mas vai indo, a gente se cansa
de dar tantas voltas na dança.
– Ora, filho, e a fé? e a esperança?
– E daí, pai?
– Como viste ou talvez não viste,
seja a música alegre ou triste,
o homem que é homem não desiste
e a si não trai.
– Mas acho o avesso tão direito!
De que massa estranha fui feito?
Por que esta alma assim sem jeito?
Por que, meu pai?
– Não bebas tanto esses venenos
da alma, e olha: não és mais nem menos
que os outros que vão ao teu lado.
Assim como eles, um recado
tens gravado na mão, lembrando
a Morte, não se sabe quando.
[...]
SOUSA, Afonso Felix de. Nova antologia poética. Goiânia: Cegraf/UFG, 1991. p. 28-29.
Esse texto apresenta um aspecto recorrente na poesia de Afonso Felix, que pode ser sintetizado