“De um lado os pobres, do outro os “ricos e poderosos”: riqueza e poderio andam a par. Estêvão Langton – admiremos-lhe a lucidez – apercebe-se claramente da infraestrutura das relações sociais. Os movimentos da economia reabriram o muito velho corte, binário, em função do qual Hincmar e os bispos carolíngios haviam construído a sua moral cívica. Os pobres, ganhando com o suor do seu rosto os magros escudos que mãos ávidas logo se encarniçam em tirar-lhes. “Ignóbeis” porque trabalham – e têm de trabalhar porque são pobres –, sob pena de se verem acusados de orgulho e votados à danação. Porque esse mundo em progresso, cujo olhar se afasta lentamente do céu, dirigindo-se cada vez mais para o terrestre e preocupando-se com o que produz, apenas reconhece ao trabalho manual um valor: o de castigo salutar. O trabalho é servidão. Avilta, degrada. Todos os que acedem à alta cultura – os únicos de quem sabemos o que pensavam – continuam convencidos de que o homem de estirpe não deve pôr as mãos no trabalho, que deve viver como senhor e ser alimentado por outros”.
(DUBY, Georges. As Três Ordens. 2ª Ed. Lisboa: Editorial Estampa, 1994, p. 351).
A partir do fragmento de texto citado, extraído da obra “As Três Ordens”, do historiador Georges Duby, considera-se que: