Texto
A linguagem e a constituição da subjetividade
[...] O tema da “constitutividade” remete, de alguma forma, a questões que demandam
explicitação, já que supõe uma teoria do sujeito e esta, por seu turno, implica a definição de
um lugar nem sempre rígido a inspirar práticas pedagógicas e por isso mesmo políticas.
Quando se admite que um sujeito se constitui, o que se admite junto com isso? Que
[05] energeia põe em movimento este processo? É possível determinar seus pontos alfa e ômega?
Em que sentido a prática pedagógica faz parte deste processo? Com que “instrumentos” ou
“mediações” trabalha este processo?
Obviamente, este conjunto de questões, a que outras podem ser somadas, põe em foco a totalidade do fenômeno humano, sua destinação e sua autocompreensão. Habituados à higiene da racionalidade, ao inescapável método de pensar as partes para nos aproximarmos de respostas provisórias [10]que, articuladas um dia – sempre posto em suspenso e remetido às calendas gregas – possam dar do todo uma visão coerente e uniforme, temos caminhado e nos fixado nas partes, nas passagens, mantendo sempre no horizonte esta suposição de que o todo será um dia compreendido.
[15] Meu objetivo é pôr sob suspeição a esperança que inspira a construção deste horizonte, o ponto de chegada. E pretendo fazer isso discutindo precisamente a noção de constitutividade e as seguintes implicações que me parecem acompanhá-la:
1. admitir a noção de constitutividade implica em admitir um espaço para o sujeito;
2. admitir a noção de constitutividade implica em admitir a inconclusibilidade;
[20] 3. admitir a noção de constitutividade implica em admitir o caráter não fechado dos
No movimento pendular da reflexão sobre o sujeito, os pontos extremos a que remete
nossa cultura situam o sujeito ora em um de seus lados, tomando-o como um deus ex-nihilo,
[25]fonte de todos os sentidos, território previamente dado já que racional por natureza (e por
definição), espaço onde se processa toda a compreensão. Na outra extremidade, o sujeito é
considerado mero ergon, produto do meio ambiente, da herança cultural de seu passado.
Entre a metafísica idealista e o materialismo mecanicista, pontos extremos, movimenta-se o
pêndulo. E a força deste movimento é territorializada em um de seus pontos. A absorção de
[30]elementos outros, não essenciais segundo o espaço em que se situa a reflexão, são acidentes
incorporados ao conceito de sujeito que cada corrente professa. Exemplifiquemos pelas
posições mais radicais.
Do ponto de vista de uma metafísica religiosa, destinando-se o homem a seu reencontro paradisíaco com seu Criador, de quem é feito imagem e semelhança, os desvios de
[35] rota, os pecados, enfim a vida vivida por todos nós, neste tempo de provação, a consciência
que, em sua infinita bondade, nos foi concedida pelo Criador, aponta-nos o bem e o mal,
ensina-nos, do nada, o arrependimento pela prática deste e a alegria pela prática daquele.
Deus e o Diabo, ambos energeia. Impossível um sem o outro, como mostra o “evangelista”
contemporâneo José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
[40] Do ponto de vista de um materialismo estreito, o sujeito na vida que vive apenas ocupa
lugares previamente definidos pela estrutura da sociedade, cujas formações discursivas e
ideológicas já estatuíram, desde sempre, o que se pode dizer, o que se pode pensar.
Recortaram o dizível e o indizível. Toda e qualquer pretensão de dizer a sua palavra, de
pensar a motu proprio não passa de uma ilusão necessária e ideológica para que o Criador,
[45]agora o sistema, a estrutura se reproduza em sua igualdade de movimentos. Assujeitado
nestes lugares, o sujeito conduz-se segundo um papel previamente dado. Representamos na
vida. Infelizmente uma representação definitiva e sem ensaios. Sempre a representação final
de um papel que não escolhemos. E aqui a lembrança de leitor remete a Milan Kundera de A
Insustentável Leveza do Ser.
[50] Em nenhum dos extremos a noção de constitutividade situa a essência do que define o
sujeito. Elege o fluxo do movimento como seu território sem espaço. Lugar de passagem e na
passagem a interação do homem com os outros homens no desafio de construir categorias de
compreensão do mundo vivido, nem sempre percebido e dificilmente concebido de forma
idêntica pela unicidade irrepetível que é cada sujeito. As interações são perpassadas por
[55]histórias contidas e nem sempre contadas. Por interesses contraditórios, por incoerências.
São de um presente que, em se fazendo, nos escapa porque sua materialidade é inefável,
contendo no aqui e agora as memórias do passado e os horizontes de possibilidades de um
futuro. Ao associarem a noção de constitutividade à de interação, escolhendo esta como o
lugar de sua realização, as concepções bakhtinianas de linguagem e de sujeito trazem, ao
[60]mesmo tempo, para o processo de formação da subjetividade, o outro, alteridade necessária,
e o fluxo do movimento, cuja energia não está nos extremos, mas no trabalho que se faz
cotidianamente, movido por interesses contraditórios, por lutas, mas também por utopias, por
sonhos. Presente limitado pelas suas condições de sua possibilidade, e porque limitado
mostra que há algo para além das margens (ou não haveria limites). Os instrumentos
[65] disponíveis, construídos pela herança cultural e reconstruídos, modificados, abandonados ou
recriados pelo presente, têm um passado, mas seu sentido se mede pelo que no presente
constrói como futuro.
Professar tal teoria do sujeito é aceitar que somos sempre inconclusos, de uma
incompletude fundante e não casual. Que no processo de nos compreendermos a nós
[70] próprios apelamos para um conjunto aberto de categorias, diferentemente articuladas no
processo de viver. Somos insolúveis (o que está longe de volúveis) no sentido de que não há
um ponto rígido, duro, fornecedor de todas as explicações.
Que papel reservar à educação e à leitura neste processo? Considerando que a
educação somente se dá pelo processo de mediação entre sujeitos e que a leitura é uma das
[75] formas de interação entre os homens – um leitor diante de uma página escrita sabe que por
trás desta há um autor (seja ele da ordem que for) com que está se encontrando, então
devemos incluir todos os processos educacionais e a leitura entre as interações e por isso
mesmo dentro dos processos de constituição das subjetividades.
A leitura do mundo e a leitura da palavra são processos concomitantes na constituição
dos sujeitos. Ao “lermos” o mundo, usamos palavras. Ao lermos as palavras, reencontramos
[80] leituras do mundo. Em cada palavra, a história das compreensões do passado e a construção
das compreensões do presente que se projetam como futuro. Na palavra, passado, presente e
futuro se articulam.
GERALDI, João Wanderley. A aula como acontecimento. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010, p. 30-32. [Adaptado].
Com base no trecho abaixo, retirado do texto, analise as afirmativas e assinale a alternativa correta.
“Ao associarem a noção de constitutividade à de interação, escolhendo esta como o lugar de sua realização, as concepções bakhtinianas de linguagem e de sujeito trazem, ao mesmo tempo, para o processo de formação da subjetividade, o outro, alteridade necessária, e o fluxo do movimento, cuja energia não está nos extremos, mas no trabalho que se faz cotidianamente, movido por interesses contraditórios, por lutas, mas também por utopias, por sonhos.”(linhas 58 a 63)
I. Em “Ao associarem a noção de constitutividade à de interação [...]”, há uma retomada por elipse do termo ‘noção’, justificando a marcação de ocorrência de crase.
II. A palavra ‘esta’ tem como referente a expressão ‘as concepções bakhtinianas’.
III. A expressão entre vírgulas ‘alteridade necessária’ corresponde a uma explicação do termo antecedente.
IV. As duas ocorrências da conjunção ‘mas’ estabelecem relações coordenativas: a primeira, adversativa, e a segunda, aditiva.