Parte do letramento científico em ciências sociais consiste no domínio de conhecimentos sobre a antropologia e o relativismo cultural. Para o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, uma das tarefas fundamentais da antropologia é a "reconstituição da imaginação conceitual indígena nos termos de nossa própria imaginação". Veja o que ele escreve sobre a ausência na cultura Yawalapiti da tradicional distinção entre o mundo humano e o mundo natural presente em nossa cultura.
Otraço mais saliente da taxonomia Yawalapiti do que chamaríamos seres vivos é a ausência de separação categórica entre os humanos e os demais animais. Não existe umconceito correspondente à nossa noção de ‘animal (não-humano)’.[...] os bichos são seres que hesitam entre os humanos e os espíritos. ‘Quase espíritos’. A onça é o único animal que não tem kawika (medo ou respeito) dos humanos; isto a aproxima dos espíritos, de quem, ao contrário, são os humanos que têm grande medo. Seu oposto absoluto é o macaco, que é o único apapalutápa-mina que os Yawalapiti admitem comer, argumentando, curiosamente, que é ‘porque ele parece gente’. As onças comem os humanos, os humanos comem os macacos: ‘gente é macaco de onça’, disse-me alguém.
CASTRO, Viveiros de. Cativeiros da Alma Selvagem. São Paulo: Cosac, 2003. p. 48-49.
A partir das informações do texto, considere as afirmativas a seguir.
I → A variação de cosmologias e taxonomias de entidades entre povos distintos mostra que não existem verdades sobre o mundo natural.
II → A existência de onças, macacos e outros animais selvagens depende da cosmologia e taxonomia própria dos povos amazônicos.
III → A linguagem antropológica é marcada pelo esforço de ultrapassar os modelos descritivos de nossa própria tradição e contexto sociocultural.
Está(ão) correta(s)