No fragmento de texto de Machado de Assis — O emplasto —, a referência ao episódio mítico edipiano soma-se à do episódio da medalha e suas duas faces, metáfora que se estende à ideia trapezista de Brás Cubas. No texto a seguir, de João Guimarães Rosa, a face, a imagem, está no âmbito da reflexão especular: real, virtual, simbólica.
O espelho
[1] Se quer seguir-me, narro-lhe; não uma aventura, mas
experiência, a que me induziram, alternadamente, séries de
raciocínios e intuições. Tomou-me tempo. Surpreendo-me,
[4] porém, um tanto à parte de todos, penetrando conhecimento que
os outros ainda ignoram. O senhor, por exemplo, que sabe e
estuda, suponho nem tenha ideia do que seja, na verdade — um
[7] espelho? Decerto, das noções de física, com que se
familiarizou, as leis da ótica. Reporto-me ao transcendente, todavia...
O espelho, são muitos, captando-lhe as feições; todos
[10] refletem-lhe o rosto, e o senhor crê-se com aspecto próprio e
praticamente inalterado, do qual lhe dão imagem fiel. Mas —
que espelho? Há-os bons e maus, os que favorecem e os que
[13] detraem; e os que são apenas honestos, pois não. E onde situar
o nível e ponto dessa honestidade ou fidedignidade?
Como é que o senhor, eu, os restantes próximos,
[16] somos, no visível? O senhor dirá: as fotografias o comprovam.
Respondo: que, além de prevalecerem para as lentes das
máquinas objeções análogas, seus resultados apoiam antes que
[19] desmentem a minha tese, tanto revelam superporem-se aos
dados iconográficos os índices do misterioso. Ainda que tirados
de imediato, um após outro, os retratos sempre serão entre si
[22] muito diferentes. E as máscaras, moldadas nos rostos? Valem,
grosso modo, para o falquejo das formas, não para o explodir
da expressão, o dinamismo fisionômico. Não se esqueça, é de
[25] fenômenos sutis que estamos tratando.
Resta-lhe argumento: qualquer pessoa pode, a um
tempo, ver o rosto de outra e sua reflexão no espelho. O
[28] experimento, por sinal ainda não realizado com rigor, careceria
de valor científico, em vista das irredutíveis deformações, de
ordem psicológica. Além de que a simultaneidade torna-se
[31] impossível, no fluir de valores instantâneos. Ah, o tempo é o
mágico de todas as traições... E os próprios olhos, de cada um
de nós, padecem viciação de origem, defeitos com que
[34] cresceram e a que se afizeram, mais e mais. Os olhos, por
enquanto, são a porta do engano; duvide deles, dos seus, não de
mim. Ah, meu amigo, a espécie humana peleja para impor ao
[37] latejante mundo um pouco de rotina e lógica, mas algo ou
alguém de tudo faz brecha para rir-se da gente...
Vejo que começa a descontar um pouco de sua inicial
[40] desconfiança quanto ao meu são juízo. Fiquemos, porém, no
terra a terra. Rimo-nos, nas barracas de diversões, daqueles
caricatos espelhos, que nos reduzem a mostrengos, esticados ou
[43] globosos. Mas, se só usamos os planos, deve-se a que primeiro
a humanidade mirou-se nas superfícies de água quieta, lagoas,
fontes, delas aprendendo a fazer tais utensílios de metal ou
[46] cristal. Tirésias, contudo, já havia predito ao belo Narciso que
ele viveria apenas enquanto a si mesmo não se visse...
Sim, são para se ter medo, os espelhos...
João Guimarães Rosa. O espelho. In: Primeiras estórias. Ficção completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, v. 2, p. 437-55 (com adaptações).
Com referência ao texto O espelho, e a questões por ele suscitadas, julgue o item.
As estruturas “Não se esqueça, é de fenômenos sutis que estamos tratando” (l.24-25) e Não se esqueça, estamos tratando de fenômenos sutis são análogas no que se refere aos constituintes sintáticos, mas se distinguem quanto a efeitos discursivos: a primeira, mas não a segunda, evidencia efeitos obtidos pela focalização de complemento verbal.